sábado, 4 de janeiro de 2014

REFLEXÃO SEDRAH 143 - EM DEVARIM 29 (O SABER REVELADO)

por Yossef Michael

A Sedrah desta semana nos fala sobre aliança, bênçãos e caminhos a serem seguidos. É muito poderosa, no sentido que se encerra, associando obediência à vida e desobediência à morte. Realmente muito forte!

Existe um passuk/verso, em especial que costumeiramente é entendido de uma determinada  forma, porém, a partir do hebraico, pode trazer-nos um novo entendimento.

Estamos falando de Devarim/Deuteronômio 29:29, “Os conhecimentos ocultos pertencem a YHWH nosso Elohim: o saber revelado, entretanto, pertence a nós e a nossos filhos, para sempre, a fim de que vivamos na prática de todas as Palavras desta Torá, Lei!”.

Bastante conhecido em todos os meios religiosos, serviu e serve como uma espécie de justificativa, para não se investigarem as Escrituras, não? Mas será que é isto que o hebraico nos revela? Para isto, vamos estudar o significado do “saber revelado”. 

No hebraico temos a palavra "vehanig’lot", aqui traduzida como “o saber revelado”. Obviamente esta palavra não aparece em nenhuma outra passagem das Escrituras, até por sua complexa composição, mas a raiz que a ela dá origem, "galah", aparece algumas vezes. E é nela que pretendo apoiar nosso estudo. 

Na Torah, esta raiz aparece apenas cinco vezes, senão vejamos.

Vaiykrah/Levítico 20:11, “E o homem que se deitar com a mulher de seu pai descobriu (gilah) a nudez de seu pai; ambos certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles”;

Vaiykrah/Levítico 20:17, “E, quando um homem tomar a sua irmã, filha de seu pai, ou filha de sua mãe, e vir a nudez dela, e ela a sua, torpeza é; portanto serão extirpados aos olhos dos filhos do seu povo; descobriu (gilah) a nudez de sua irmã, levará sobre si a sua iniquidade”

Vaiykrah/Levítico 20:20, “Quando também um homem se deitar com a sua tia descobriu (gilah) a nudez de seu tio; seu pecado sobre si levarão; sem filhos morrerão”;

Vaiykrah/Levítico 20:21, “E quando um homem tomar a mulher de seu irmão, imundícia é; a nudez de seu irmão descobriu (gilah); sem filhos ficarão”;

Devarim/Deuteronômio 27:20, “Maldito aquele que se deitar com a mulher de seu pai, porquanto descobriu (gilah) a nudez de seu pai. E todo o povo dirá: Amém”.

Por todas as passagens apresentadas, não resta nenhuma dúvida sobre o sentido de “descobrir”, referindo-se a transgressões sexuais, quando um homem relaciona-se com familiares, em total desacordo com a Torah do Eterno.

Temos duas situações bastante claras e distintas nestas passagens. Em quatro delas vemos a nudez de homens sendo descobertas: duas vezes o pai, uma vez o tio e outra vez o irmão e, apenas, em uma delas a referência é à mulher, propriamente dita, no caso da irmã. Talvez isto revele, como princípio de entendimento, que a ação praticada pelo homem, independente da vontade de sua parceira, traz consequências terríveis para uma terceira pessoa,  totalmente alheia ao ato praticado. As consequências destas relações ilícitas são devastadoras, por assim dizer. Morte, extirpação do povo e descendência interrompida parecem-me situações bastante difíceis para se enfrentar, seja naquela época, seja atualmente.

Mas qual é a relação destas passagens com a que estamos estudando em Devarim 29?

Mais do que uma instigação a não procurar saber o que dizem as Escrituras, como muitas denominações procuram veicular, acredito que o Eterno, Bendito Seja, esteja aqui nos revelando algo, de certa forma, bastante sério... Entendo não como uma simples conclusão, mas, sim como uma terrível advertência!!!

Existe uma passagem em Yehezk’El/Ezequiel que vai bem na linha do que estamos estudando,:

Yehezk’El/Ezequiel 22:10-11, “A vergonha do pai descobriram (gilah) em ti; a que estava imunda, na sua separação, humilharam no meio de ti. Um cometeu abominação com a mulher do seu próximo, outro contaminou abominavelmente a sua nora, e outro humilhou no meio de ti a sua irmã, filha de seu pai”.

Qual o contexto desta passagem? Estas transgressões aparecem em meio a uma série de outras, igualmente muito sérias. 

Vamos lista-las: idolatria, assassinatos de inocentes, desprezo para com pai e mãe, opressão aos estrangeiros, órfãos e viúvas, desprezo em relação à Santidade de HaShem, profanação do Shabat, calúnias, mentiras, perversidade, corrupção, usura, avareza.

Impressionante não? Se acreditássemos em inferno, diríamos que isto só poderia estar ocorrendo nele!!! Mas não, isto estava sendo praticado em Eretz/Terra Yisra’El!!! 

E qual a consequência disto? A manifestação da mais profunda ira do Criador, dispersando Seu povo em meio às nações.

Vemos que a Torah “descobre”, no sentido de revelar, nossas transgressões. Pelo conhecimento da Vontade do Criador, ganhamos consciência de nossa condição de transgressores, pois, diante da exposição de todas as nossas mazelas, tornamo-nos pequeníssimos, miseráveis!!! Não poderia ser diferente...

Vamos reler agora a passagem, sob este novo prisma?

Os conhecimentos ocultos pertencem a YHWH nosso Elohim: uma vez que a Torah revelou nossa condição de transgressores, temos a obrigação de nos abstermos destas transgressões o máximo que estiver ao nosso alcance, para que suas consequências não ultrapassem gerações, ao ponto de comprometer nosso retorno à condição de povo, sendo finalmente desterrados de nossa terra natal!

Ou seja, pelo meu humilde entendimento, a orientação é justamente contrária ao entendimento comum, isto é, devemos sondar as Escrituras com todo o nosso coração a fim de “entranha-la” e, conhecendo-a, nos afastarmos da condição inicial a que fomos expostos!!!

As transgressões apontadas em Vaiykrah/Levítico, Devarim/Deuteronômio e Yehezk’El/Ezequiel são cometidas a partir de nossos mais sombrios desejos e impulsos ocultos em nossos corações. Tamanha é a desgraça que estes desejos nos trazem ao vermos o que de fato ocorreu, segundo Yehezk’El/Ezequiel.

O que precisa ficar muito claro é que não estou aqui propondo que uma geração, no caso dos filhos, esteja assumindo ou “pagando o preço” pela transgressão de outra anterior, longe de mim!!! O que quero dizer, é que os efeitos, as consequências, estes sim, são experimentados pelas gerações seguintes.

Matematicamente falando, a transgressão causa efeitos como em uma progressão geométrica, ou seja, multiplicam-se, dado que o contexto em que estamos inseridos, pela falta de retorno aos Caminhos do Criador, tende a piorar ainda mais, dificultando de forma crescente o cumprimento de Suas Mitsvot/Mandamentos!!!

Este “lavar as mãos espiritual”, proposto por tantas denominações, confronta pesadamente a Torah/Lei do Criador... Não existe espiritualização no Tanach/Escrituras!!! Nós temos nossas obrigações e devemos, na medida em que nos é possível, cumpri-las!!! Se assim não o for, que tenhamos uma boa justificativa para isto...

Acaso estas mitsvot relativas aos relacionamentos sexuais “caducaram”? Tratava-se de algo para aquela época? Hoje vivemos em uma sociedade onde a “ordem das coisas” impera?

Não estamos aqui discutindo qualquer tipo de orientação sexual, mas sim que existe uma ordem natural para tudo e a Torah nos deixa muito claro qual é...


Precisamos cuidar bastante para que este “saber revelado” não nos leve a uma condição de soberba, ou até mesmo prepotência, pois não é esta a mensagem da Torah... Precisamos cuidar para que não imputemos ao Criador toda a responsabilidade por nossos atos falhos, por não termos tudo a nós “revelado”... Precisamos cuidar para que nossos filhos não tropecem em nossas justificativas e desculpas para tentarmos, à nossa conveniência, driblar qualquer mitsvah/mandamento que esteja ao alcance de nosso cumprimento!!!
Shavuá Tóv!!!
Chazak, Chazak Venit Chazek!!!
Força, força e que sejamos fortalecidos!!!

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