quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

AS RELIGIÕES HOJE (LIVRO) - O JUDAÍSMO (Parte 2)

(Brit'milah)
Princípios e fundamentos da fé judaica 

Pág.154: 
  1. princípio: crer na existência de um Deus, ser perfeito, que criou tudo e governa tudo o que existe. Sua não-existência é inconcebível. 
  2. princípio: crer na unidade absoluta de Deus, unidade impronunciável e indivisível
  3. princípio: crer que esse Deus único não é nem corpo nem uma força, mas um Espírito, que não pode ser representado. 
  4. princípio: crer que só esse Deus é eterno, sem começo nem fim. 
  5. princípio: só a ele se deve orar, só ele deve ser exaltado, obedecido e servido, com exclusão de qualquer outro: astros, elementos, anjos... 
Essa profissão de fé está contida no versículo do Deuteronômio que o jovem afirma por ocasião de sua bar-mitzva, e que o judeu piedoso lembra sem cessar: 'O Senhor é nosso Deus, o Senhor, e um'. 

Ela proclama também a revelação: 

    6. Há profetas que, por sua perfeição, receberam a inspiração divina. Suas palavras (a         Bíblia) são verdade. 
    7. Moisés foi o maior de todos os profetas; falou diretamente com Deus.  
    8. Toda a Torá foi dada a Moisés por Deus; ela toda é perfeita e santa.  
    9. Essa Lei, emanada de Deus, ninguém tem o direito de completá-la ou  diminuí-la. 

Enfim, ser judeu é crer no Messias e num mundo por vir. 

   10. Deus conhece todas as ações e todos os pensamentos dos homens e não lhes é              indiferente. 
   11. Ele recompensa aquele que cumpre os mandamentos da Lei e pune aquele que                transgride as proibições. A recompensa suprema é o mundo futuro; a punição: a                'exclusão'.  
   12. O Messias anunciado pelos profetas virá, e, sem calcular a data de sua vinda, é                necessário esperá-lo, ainda que ele tarde. A sua realeza prevalecerá sobre todos os          reis, e a realeza legítima pertence à dinastia de Davi. 
   13. Na hora escolhida por Deus, os mortos serão chamados à vida. Essa é a doutrina              do judaísmo tirada da Bíblia, mas repensada pela filosofia."

A moral judaica 

Pág.156: 
"Essa fé simples, toda centrada na lei, prolonga-se e encarna-se em um conjunto de mandamentos que regem todos os atos do judeu crente. O fundamento dessa moral é evidentemente o Decálogo das tábuas de Moisés. Mas, a partir do Pentateuco, foi acrescentada uma multidão de prescrições concernentes à vida cotidiana, desde o levantar-se até o deitar-se, à alimentação, ao matrimônio, ao luto e às purificações. Somam 613. E se sabe que alguns rabinos se esmeram, complicando ao excesso essas obrigações e proibições. 

Mais simplesmente, Davi anuncia onze virtudes: a retidão, a justiça, a verdade, a abominação da maledicência, da maldade e da injúria, o desprezo pelo ímpio, a estima pelo justo, o respeito aos juramentos, o empréstimo sem juros e a incorruptibilidade. Isaías as reduz a seis, e Miquéias, a três. Enfim, Habacuc condensa toda a moral em uma fórmula que se tornou universalmente célebre: 'O justo vive pela fé'. 

Assim, toda a moral está centrada em uma trilogia de virtudes: o estudo da Lei, a observância dos mandamentos e a prática da justiça com o próximo. 

A essas três virtudes correspondem três pecados capitais: a idolatria, a libertinagem e o homicídio."

O sacrifício (korban) na religião judaica 

Pág.158: 
"É a expressão arcaica da fé primitiva de todas as religiões. Mas não pode ser separado da fé fundamental do judaísmo. Ele a manifesta e reforça. O Deus dos patriarcas, Deus todo-poderoso, criador de todas as coisas, é o proprietário do mundo. Tudo lhe pertence: o universo, a terra e as criaturas que a povoam. Ele as deu a seu povo, o que significa que o homem deve reconhecer esse dom, essa dívida. 

sacrifício é, pois, reconhecimento de uma dívida. É tanto dever de justiça como ato de adoração. Pelo rito sacrificial, no sentido próprio, o judeu dá a Deus o que lhe é devido. Confessa que é somente o usufrutuário dos bens pertencentes a Deus, o intendente do senhor do universo. 

Na origem, o sacrifício é, sem dúvida, humano, como o mostra a imolação de lsaac por Abraão. Mas, tendo provado sua obediência, lahweh lhe apresentou o carneiro, que, daí em diante, serviria de vítima.Moisés confirma esse resgate por um animal, e a Bíblia fala, depois, de sacrifícios de novilhas, de cabras e de rolinhas. 

Assim, desde Galaad, o tratado que fixava as fronteiras entre Canaã e a planície foi selado por um sacrifício: 'Abraão tomou uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, uma rolinha e uma pomba e pôs cada parte uma diante da outra; mas os pássaros, não os partiu'. E Deus, na forma de fogo, passou entre os pedaços, mostrando assim que o sacrifício lhe era agradável. 

(...)
Na época do templo, havia dois tipos de sacrifício.

O primeiro era o holocausto, em circunstâncias solenes, como o grande perdão, com uma finalidade precisa, por exemplo, o resgate dos pecados do povo. Ele consistia no sacrifício de um animal, consumido depois. 

O segundo era uma oblação, isto é, a oferenda, seja de um alimento, como bolos, seja de animais. Os restos pertenciam aos sacerdotes. Essas oferendas marcavam o reconhecimento pela colheita, por um nascimento, por uma cura ou pelo cumprimento de um voto."

A circuncisão (Brit'milah)

Pág.159: 
"É rito essencial, próximo do sacrifício, mas sempre praticado. Como vimos, a circuncisão é sinal de aliança com Iahweh. Mas marca também o fato de o 'circunciso' pertencer a Deus. Pela circuncisão, o jovem testemunha que foi designado, escolhido por Deus e que forma parte de seu povo. 

A circuncisão remonta a Abraão, depois que Iahweh lhe suscitou um filho por intermédio de Agar, a serva.43 Ela foi codificada pela lei de Moisés: 'Todos os vossos machos sejam circuncidados. Fareis circuncidar a carne de vosso prepúcio, e este será o sinal da aliança entre mim e vós. Quando completarem oito dias, todos os vossos machos serão circuncidados... Minha aliança estará marcada na vossa carne como uma aliança perpétua. O incircunciso, o macho cuja carne do prepúcio não tiver sido cortada, esta vida será eliminada de sua parentela; ele violou minha aliança'."

A sinagoga (beit knésset)

Págs.160-161: 
"Não mais o santuário, acessível só aos sacerdotes, mas simplesmente o lugar onde as pessoas agem juntas, como o indica a etimologia grega. É o que significa o termo hebraico beth hakenneseth, a casa da assembléia. A sinagoga é, pois, menos lugar de culto que edifício para reuniões e ensino. Nela se conserva a tradição e se participa da oração comunitária. [nota de rodapé: os asquenazes distinguem sinagogas destinadas ao ensino, shull, e as que são lugares de oração, menores, as stiebel ('pequenas salas'). Mas, quando se forma um grupo de, pelo menos, dez homens, uma miniane, eles podem reunir-se para orar.] 

(...) cada cidade tinha sua sinagoga; em Jerusalém havia cerca de quatrocentas. A mais antiga que se conhece é a de Shedia, perto de Alexandria, que data do século III a.e.c. 

Semelhantes a basílicas greco-romanas, as sinagogas antigas, voltadas para Jerusalém, eram edificadas sobre uma elevação ou perto de águas correntes. Abriam-se para o exterior por três portas sem ornamentos. O interior compreendia geralmente uma nave central e duas laterais, em cima das quais havia galerias reservadas às mulheres e à quais se tinha acesso por escadaria externa. 

Sua parte principal era e continua sendo a arca da Torá, muitas vezes um armário situado para o Oriente. Sobre um estrado, chamado almamon ou bima, são realizadas as leituras e as orações. Dois candelabros de sete braços flanqueiam a arca santa, mas a ornamentação se limita ao pavimento, aos capitéis e a um painel central, decorado com cena bíblica, no alto da roda do zodíaco e com símbolos rituais. 

Durante as cerimônias, os homens, com a cabeça coberta e usando o talith no ombro, mantêm-se de pé na nave; as mulheres ocupam as galerias laterais. O centro do culto na sinagoga são a leitura da Torá e as orações."

A Torá 

Págs. 161-162: 
"No sentido próprio, é um conjunto de prescrições sociais, morais e religiosas: um código, 'mandamentos', cujo cerne é constituído pelo Decálogo. 

No sentido religioso, essa lei diz Deus. É a sua palavra, um apelo à santidade. Essa santidade é a vocação do povo escolhido. Ela é prática da justiça a serviço da humanidade. 

(...)
Há a lei escrita, incontestável, e a lei oral, que, comunicada a Moisés, se desenvolve e se transmite de geração em geração. Aquela admitida pelos fariseus, é posta em dúvida pelos saduceus. Todavia, sua interpretação não é livre, mas se inscreve em uma meditação contínua, que tem por finalidade perscrutar mais fielmente a lei de Iahweh. Esse longo estudo convergiu, no ano 246 em um ensinamento aceito unanimemente, a 'Mixná' e, um pouco mais tarde, em uma coleção de 'estudos', o 'Talmude'. 

A Mishná, redigida em hebraico, é o ensinamento ou a 'leitura' e compreende seis seções, com sessenta e três tratados e cento e vinte e três capítulos. As seis seções ou 'ordens' (sedarim) são consagradas às sementes (regulamentos e bênçãos), às estações (festas), às mulheres, aos danos, aos objetos consagrados e às coisas puras. O estudo da Mixná forma parte integrante dos deveres religiosos que levam à salvação, já que ela é conhecimento da vontade de Deus. Foi a partir da Mixná que o grande rabino e filósofo Maimônides (1135-1204) compôs uma espécie de condensação das crenças judaicas: Livro dos preceitos (Talmud)

Talmude contém o ensinamento dado pelos rabinos palestinenses (tannaim) e pelos rabinos de Babilônia, os 'amoras'. Distinguem-se, por isso, o Talmude de Jerusalém, terminado no século IV, e o Ta mude de Babilônia, impresso pela primeira vez em Veneza, em 1520. O Tal mude se divide em duas partes: regras que permitem santificar toda a vida - a halacá - e uma espécie de pregação, um conjunto de comentários e sentenças, a hagadá. Em seus tratados, como a Mixná, dá a síntese da revelação e das leis, englobando toda a vida judaica.

A Torá é tão importante que o judeu piedoso não se separa dela fisicamente. Ele a traz sobre si, na forma de filactérios, isto é, de pequenas caixas de couro preto contendo passagens da Escritura, amarradas em tomo do braço esquerdo e da cabeça por correias de couro preto. Com exceção do sábado, são usados assim nos serviços religiosos da manhã."

A oração (Tefilah)

Págs.162-163: 
"No judaísmo, a oração é tão importante como a Torá, que ela inclui. Ela é, com efeito, recitação de passagens da Torá e, portanto, adesão à lei de lahweh e proclamação da fé. É também presença de Deus na vida. Na vida toda: individual e coletiva; nos dias comuns e nos dias de festa. 

Ao mesmo tempo, a oração é sacrifício, substituindo o do templo, isto é, uma parte do tempo dado por Deus que o homem lhe devolve, entrega-lhe. O porte obrigatório do talith, o xale da oração, lembra ao fiel que sua vida é consagrada ao serviço de Deus. Esse xale - azul, preto ou branco - tem franjas (tzitziot)

Três orações marcam as três horas principais do dia: 

  • a oração da manhã (shacharit)no começo da aurora; 
  • a do meio-dia (minchah)a oferenda; 
  • e a do crepúsculo (arvit), serviço da noite

As três têm sua origem nos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó e reproduzem a história das libertações e das alianças entre Deus e o povo judeu. A shacharit da manhã celebra a saída das trevas e do exílio e proclama o "shemá Israel" (Ouve Yisra'El). As dezoito bênçãos (shemonê esrê) do meio-dia rendem graças ao Deus de Abraão, que liberta, perdoa e reina na Luz. A oração da noite introduz na paz noturna, que é tambem o shalom  de Deus. 

No dia de sábado (shabat), acrescentam-se a essas orações tradicionais a leitura de passagens da Torá e de hinos (Tehilim/Salmos). Recitadas em geral coletivamente na sinagoga, elas também o são em qualquer lugar, desde que haja grupo de dez homens de mais de treze anos (miniam)

Mas as orações são sempre as da comunidade, pronunciadas no plural. Quando há um oficiante, ele as recita, e o povo as ratifica com seu amen (amém). Presidir a oração comunitária é função do Hazan (cantor) e comentar a Torá é função do rabino."

O Rabino (Rav)

Págs.163-164: 
"Talvez seja conveniente lembrar ou precisar que o rabino não é sacerdote (kohen).

O sacerdote judeu ou kohen era encarregado, inicialmente, isto é, desde o tempo de Arão (Aharon), do serviço do templo (Beit Hamikdash): sacrifícios, bênçãos sobre o povo, transporte da arca da aliança e purificação dos doentes e dos impuros. Escolhidos entre os descendentes de Arão, os sacerdotes constituíam casta fechada, hereditária. Mas, depois da destruição do templo, do exílio e da dispersão, não se pode dizer, com certeza, que eram descendentes de Aarão; além disso, as cerimônias sacrificais tinham desaparecido. 

Com a reforma de Esdras, depois do exílio, é, pois, o rabino - em hebraico, o mestre, isto é, o doutor da Lei - que exerce o papel principal na comunidade judaica. Ele é mestre e ministro do culto. Antigamente, comentava e explicava a Bíblia e o Talmude. Pelo respeito escrupuloso às práticas, contribuiu muito para a manutenção da identidade das comunidades judaicas dispersas pelo mundo. 

Hoje, o rabino tem, de um lado, a função do ensino religioso, tanto dos adultos como das crianças, e, do outro, representa a comunidade junto às autoridades civis de um país, como o 'rabino mayor' na Espanha medieval."

Os grãos-rabinos

Pág. 164:
"Na França, em 1808, Napoleão I criou o posto de grão-rabino para os chefes de cada consistório regional. O grão-rabino da França é eleito por assembléia de rabinos de várias sinagogas e de leigos. São os grão-rabinos que concedem o diploma de rabino, o qual coroa anos de estudo em seminário rabínico. Os rabinos são casados e chamados a ter muitos filhos, para cumprirem o dever sagrado da procriação."

As cinco grandes festas

Págs.164-166: 
"Rosh Hashaná (Cabeça de ano) marca o começo do ano e a recordação do julgamento divino do primeiro homem, significando o de toda a humanidade. Para o judeu piedoso, é ocasião para julgar a si mesmo ... Esse dia faz parte da dívida dos homens com seu Criador. Mas é também dívida com os servos e os animais. O homem, intendente deles, deve-lhes um dia de descanso. 

Na Lei de Moisés, esse descanso se estendia também à terra: era o ano sabático, de sete em sete anos; prática agrícola do descanso da terra, era também a oportunidade para a redistribuição da terra:obra de justiça. 

O sábado (Shabat) começa na sexta-feira, ao cair da noite, e termina no sábado à noite. É marcado pela proibição do trabalho. O Talmude menciona trinta e nove trabalhos proibidos. Hoje, no Estado de Israel, o sábado é feriado, tudo pára: transportes públicos, comércio, escolas, escritórios..."

As Prescrições Alimentares

Pág.168:
"Como o sábado (Shabat), também as proibições e as normas concernentes à alimentação formam parte da existência habitual dos judeus. Decorrem das leis descritas em Levítico (7,8-37), que estabelecem os domínios do permitido e do proibido. Mas, além do ritualismo, é necessário compreender o sentido profundo dessas normas. A finalidade principal é a de dar a Deus o que lhe pertence, de guardar para Ele a parte que Lhe é reservada, isto é, sagrada, como o sangue. Socialmente, trata-se de preservar a identidade do povo escolhido. Suas práticas alimentares, vitais, devem distingui-lo de seus vizinhos, dos idólatras. Há, finalmente, preocupação com a justiça, por exemplo, não fazer os animais sofrer.

Tais são as numerosas regras do abate. O animal não deve ser anestesiado, mas sacrificado com lâmina afiada. Sob pena de nulidade, a traquéia e o esôfago devem ser cortados no ponto certo. Para isso, somente em Paris (França), existem trinta executores juramentados, controlados por comissões rabínicas.

Tudo o que concerne à carne - criatura viva - é bastante rigoroso. É autorizada - kasher - só a carne dos ruminantes de pés fendidos (bovinos, caprinos, ovinos), das aves domésticas, dos pombos e das pombas e a dos peixes de escamas e nadadeiras. É proibida a carne dos outros animais (camelos, lebres, porcos... arraias, enguias...) Mais severamente ainda, são proibidos a gordura e o sangue.  'Todo aquele que comer qualquer sangue será eliminado do seu povo'; ... por fim, a proibição de comer carne misturada com leite.

Prescrições particulares se aplicam às festas, recordação de suas origens. Assim, em Pessach (Páscoa)é permitido só o pão ázimo (matzah), isto é, sem sal e sem fermento, como na partida do Egito. Alimento e bebida fermentados são proibidos.


A distinção entre puro e impuro comanda alguns ritos. "
(continua na parte 2)

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