quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

AS RELIGIÕES HOJE (LIVRO) - O JUDAÍSMO (Parte 1)

Shalom chaverim,
Não dá pra falar em teshuvah (retorno), sem buscar conhecer um pouquinho da cultura e tradição daqueles que A preservaram, os Yehudim/Judeus (nome pelo qual todos os hebreus/israelitas, passaram a ser designados, após o período em que Am'Yisra'El foi levado cativo para Bavel/Babilônia).

Para que a leitura não fique exaustiva, o material foi dividido em 3 partes.

por Ya'elBat Yossef
SAMUEL, Albert. As Religiões Hoje
Pesquisa: Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco/Patrocínio: Philips do Brasil.
Fonte: SAMUEL, Albert. As Religiões Hoje. trad. de Benôni Lemos, São Paulo, Paulus, 1997, 354 p., p. 138-178. 
Compilação: Amaro Braga, pesquisador do GIEJ e AHJPE. Set/2002.

Obs.: (O português utilizado na compilação é de responsabilidade do tradutor).

O livro é um tratado de história da religião, mas que de uma forma diferenciada, contrasta os aspectos do surgimento da religião com seus aspectos contemporâneos e se destaca por constituir as informações tratadas através de citações da bíblia.
Sobre o autor:

Albert Samuel, é licenciado em letras, escreve em jornais e revistas e emissoras de rádio belgas e francesas e tem vários livros publicados na área de história da religião.

A criação do povo hebreu
Pág.139:

"Esse povo é o povo hebreu. Os hebreus são descendentes de Heber, antepassado de Abraão. Eram chamados 'habiru' ou, segundo a raiz aramaica, ‘ivri', isto é, os do outro lado do deserto (arábico-sírio). 

Pastores e nômades, vagavam, sob a condução de seus patriarcas, da Caldéia ao Egito, passando pela Palestina. Sua origem se situa provavelmente 5000 anos antes de Cristo, na Mesopotâmia, em torno de Ur, então colônia síria. 

É a um desses patriarcas, Jacó, cognominado Israel ('forte diante de Deus') que eles devem sua designação de 'israelitas'. 

Fixados na Palestina depois de muitas peregrinações - hoje diríamos, migrações -, depois de uma história política movimentada, formaram dois reinos: Israel (com a capital em Samaria) e Judá (com a capital em Jerusalém). Historicamente, judeus são os do reino de Judá."

Págs.140-141: 
"Os hebreus, pastores, lavradores, nômades, eram pouco diferentes dos beduínos do deserto siro-arábico. Sua história é contada pelo Gênesis. 

É a história da família de Abraão, originário de Ur, na Caldéia, e das tribos descendentes deles. Seguindo a rota dos rebanhos, elas andavam como nômades pela Mesopotâmia do Norte e pela Síria, chegando até a Palestina em 1850. Essas montanhas e estepes eram povoadas por sedentários, cujo país tem o nome de Canaã. Os hebreus fincaram suas tendas nelas, no vale de Siquém, nas escarpas de Hebron e perto dos poços de Bersabéia e do Shellal, trocavam os produtos de seus rebanhos com os habitantes do lugar, adquiriam campos... 

Por volta de 1700 a.C., impelidos pela carestia e atraídos pela fama do rico e acolhedor Egito dos hicsos, partiram para lá. Jacó e seus doze filhos se estabeleceram na região de Gessen, ao passo que José, pai de Efraim e Manassés, exercia na corte do Faraó o cargo de grão-vizir. Então fez ele ir para o Egito Jacó e toda a sua família. 'Os filhos de Israel se multiplicaram lá, tornaram-se numerosos e poderosos, e o país ficou cheio deles'. 

Bem depois da morte de Jacó e José, os faraós tebanos expulsaram os hicsos. E os hebreus, imigrantes que eram, foram requisitados para os duros trabalhos das corvéias reais, escravizados, às vezes perseguidos... Um deles, do clã sacerdotal de Levi, salvo de afogamento pela astúcia de sua mãe e criado pela filha de Faraó, recebeu o nome egípcio de Moisés. 

Em sua juventude, tendo visto um egípcio matar um de seus correligionários hebreus, matou-o também. Depois desse homicídio, fugiu e procurou refúgio na margem oriental do golfo elanítico, na terra de Madiã. Lá vivia um povo que também procedia de Abraão por meio de Cetura, uma de suas esposas. Moisés desposou Séfora, filha de Jetro (outro), sacerdote de Madiã. Certo dia, quando apascentava o rebanho de seu sogro e foi além do deserto do Sinai, o 'Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó' lhe revelou seu nome: Yhwh, 'Aquele que foi, que é, que será e que faz ser, porque Ele é'. Isso se deu no monte Horeb, no meio de uma sarça que se queimava, sem se consumir. lahweh lhe disse então que voltasse para o Egito, a fim de tirar os filhos de Israel de lá. 

Mais tarde, depois das dez pragas do Egito, os primogênitos egípcios foram atingidos mortalmente. Então o Faraó permitiu que Moisés e seu povo deixassem o país de Ramsés para Sucot, 'em número de mais ou menos 600.000, sem contar as crianças'. 

Guiados por uma nuvem de fogo, atravessando miraculosamente o mar Vermelho, dessedentados pelas águas tornadas doces de Mara e alimentados com codornizes e com o maná caídos do céu, os judeus chegaram, em três meses, ao deserto do Sinai. 

Lá, Moisés foi chamado por Deus para a montanha, onde recebeu suas prescrições, tradicionalmente chamadas 'Decálogo' ou 'Código da Aliança'... Segue-se longa viagem, contada no Livro dos Números, a morte de Moisés no monte Nebo, de onde lahweh lhe mostrou 'todo o país, de Galaad até Dã, Jericó e Soar', a passagem do Jordão sob a condução de Josué, a conquista de Canaã, a queda de Jericó e, em Silo, em cerca de 1200 a.C., a divisão do país entre as doze tribos: Aser, Neftali e Zabulon no Norte; Issacar, Efraim, Dã e Benjamim no centro; Judá e Simeão no Sul; Gad e Rúben na Transjordânia; Manassés nos dois lados do Jordão."

A historiografia do povo e os ritos festivos

Pág.142: 
"A cada uma dessas grandes etapas da história do povo hebreu correspondem os ritos e as festas importantes do judaísmo, ritos e festas que muitas vezes substituíram os antigos cultos populares, semíticos. 

Pessah (Páscoa) lembra a libertação do Egito e a passagem do mar Vermelho; Shavuot (Pentecostes) comemora a revelação no Sinai; Sucot (a festa das Tendas) evoca o tempo no qual Israel vivia em cabanas no deserto; Chanucá (festa das luzes) marca a purificação do templo, quando foi reaberto ao culto, depois da revolta dos Macabeus. É também em recordação da saída do Egito que, antes da Páscoa, se comem pães ázimos (sem fermento) e o cordeiro assado ao fogo 'com ázimos e ervas amargas... com os rins cingidos, sandálias nos pés e vara na mão...' "

Os patriarcas do povo judeu

Págs.143-144: 

"Os patriarcas aos quais Deus se revelou, já os encontramos na história dos hebreus. Lembrar sua aventura é precisar as alianças posteriores. 

Sem falarmos de Adão, que Deus colocou no 'jardim do Éden, para o cultivar e guardar', um dos primeiros homens aos quais Deus se dirigiu foi Noé. Era 'homem justo, íntegro entre seus contemporâneos e andava com Deus'. Por causa dessa 'justiça', 'encontrou graça aos olhos de Iahweh', que o preservou do dilúvio, mandando-o construir a célebre arca, que encalhou no monte Ararat. 

(...) 
O segundo interlocutor de Deus é Abraão. Era filho de Taré, de Ur dos caldeus, de onde 'saíram para ir à terra de Canaã', mas se estabeleceram em Harã, onde Taré morreu. 

(...) 
O terceiro patriarca com o qual Deus renovou sua aliança é Moisés. O livro do êxodo conta sua história e seus colóquios com Deus. Mas, foi depois da saída do Egito, quando os hebreus estavam acampados no deserto do Sinai, que Moisés 'subiu a Deus', no monte Sinai, e recebeu os dois sinais da nova e definitiva aliança: o sábado e a lei."

O inicio da prática da circuncisão (Brit'milah)

Págs.143-144:
"Bem mais tarde - Abraão tinha noventa e nove anos - quando ele morava junto ao carvalho de Mambré, 'que está em Hebron'. Iahweh lhe apareceu e lhe disse: 'Eu sou El Shaddai, anda na minha presença e sê perfeito. Instituo minha aliança entre mim e ti, e tu serás pai de uma multidão de nações, de geração em geração... A ti, e à tua raça depois de ti, darei a terra em que habitas como estrangeiro... em possessão perpétua...' Depois, como fez com Moisés, Deus indicou a Abraão um sinal dessa aliança, a circuncisão dos homens: 'Fareis circuncidar a carne de vosso prepúcio, e este será o sinal da aliança entre mim e vós.”

Sobre o Sábado (Shabat)

 Pág. 144:
"O sábado é bem mais que um dia de descanso, 'o sétimo, (no qual) não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu animal, nem o estrangeiro que está em tuas portas'. Ele lembra 'o descanso de Iahweh' depois dos seis dias da criação, e, por isso, é destinado a 'santificar' o nome de Iahweh. Ele lhe é consagrado como sinal da perfeição da criação divina."

Sobre as Leis e código da aliança (Torah)

 Pág.144: 
"O código da aliança é constituído pelo que habitualmente denominamos 'dez mandamentos' ou 'Decálogo'. De acordo com a ordem de Iahweh, Moisés 'escreveu em sua presença, nas tábuas, as dez palavras da aliança'. 

Elas são a Lei - a Torá - do homem que repudia os ídolos e reconhece um só Deus, Senhor único da sociedade de Israel. Essa sociedade recebeu suas normas de Deus mesmo. E foi essa espécie de constituição divina que a estabeleceu como nação, reino eleito de Iahweh."

Sobre o mito em torno de Deus 

Págs.145-146: 
"O nome de Deus é impronunciável. Ele lhe pertence e se confunde com sua identidade. 

Por isso, durante séculos, o homem não o diz. Nas tradições mais antigas, é designado pelo termoEL (Alá), que significa 'príncipe, herói, senhor'... Perante sua aparição, o homem se atira por terra, cobre sua face e é mantido afastado, sob pena de morte. 

Ele emite uma luz tal que, quando Moisés o encontrou, seu rosto ficou iluminado e transfigurado... O povo, ao pé da montanha, só o viu como fumaça e só o ouviu como trovão. Isso porque, quando Deus aparece, é como a chama na sarça que não se consome ou como 'numa nuvem espessa'... 'Iahweh fala no fogo'. Sua palavra queima. Mas fala àqueles que escolheu. Revela seu nome a Abraão, um nome impronunciável, um tetragrama "YHWH", ao qual posteriormente foram acrescentadas as vogais de adonai (senhor), dando Jehovah. 'Eu sou Iahweh, que te fiz sair de Ur dos caldeus'. Eu sou aquele que sou. É mais ou menos isso que ele repete a Moisés no Sinai: 'Eu sou Iahweh, teu Deus, que te tirei do país do Egito, da casa da servidão...' Isso é reconhecido por todos os profetas; Isaías diz: 'Hei de celebrar as graças de Iahweh, os louvores de Iahweh, por tudo o que Iahweh fez por nós...' 

Através dessas revelações, delineia-se a imagem do Deus dos judeus."

A Composição da Bíblia Judaica (Sefer Ivrit)

Págs. 151-153: 
"A Bíblia judaica compreende trinta e nove livros, divididos em quatro grupos de maneira não cronológica. [nota de rodapé: A Bíblia católica inclui sete livros que foram escritos em grego: Judite, Tobias, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc.] 

1. O Pentateuco

Assim chamado porque se compõe de cinco livros, os quais constituem a Lei de Moisés, em hebraico, a Torá. Esses cinco livros são: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio. 
  • Gênesis é, de um lado, a narração poética da criação do mundo; do outro, a história dos patriarcas. Essas duas partes revelam o desígnio de Deus para a sua criação: a escolha dos abençoados e o triunfo de seu amor criador sobre o nada e o pecado. Uma só lei: a circuncisão, primeiro sinal da aliança. 
  • Êxodo é, ao mesmo tempo, narrativas e leis. Três narrativas levam a três leis. A primeira lembra a saída do Egito, comemorada pela lei da Páscoa (Ex 12,1-11.43-49). 
A segunda é a caminhada para o Sinai, encerrada com o Decálogo (Ex 20,1-17). 

A terceira é o episódio do bezerro de ouro, com as novas tábuas da aliança, tendo as primeiras sido quebradas por Moisés em sua cólera (Ex 32-34 ). Seu sentido é claro: Deus liberta seu povo da escravidão e da idolatria. Ele é salvador misericordioso, se o homem é fiel a ele e à sua lei. Porque a lei de Deus é libertadora. 
  • Levítico fixa as instituições e os ritos. Ordena a vida social e religiosa. Estabelece instituições religiosas com o ritmo das festas e das prescrições. 
  • Números misturam a narrativa das migrações do povo, as leis e as tradições. O povo murmura e desobedece. Deus mostra sua severidade. 
  • Deuteronômio, novo código de leis, de discursos e de reformas, revela a penetração da mensagem de Moisés: Deus, único e invisível, é um pai para seu povo. Sua lei é uma pedagogia para conduzi-lo à verdadeira felicidade. 
2. Os profetas anteriores. 

Essa segunda coleção, chamada em hebraico nevii’m richonim, compreende os livros de Josué, dos Juízesde Samuel dos Reis

livro de Josué conta a conquista da terra prometida e descreve o país e o modo pelo qual ele foi dividido entre as tribos. Mas mostra principalmente o sentido religioso dessa aventura: Deus cumpriu sua promessa; ele combate com seus fiéis. E, em Siquém, o povo escolhe solenemente 'servir a Iahweh' e só a ele. 

livro dos Juízes sublinha a interpretação religiosa dos acontecimentos posteriores à morte de Moisés. É um período turbulento: 'Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que era bom a seus olhos'. Mas Deus continuou a guiar seu povo mediante seus castigos e seus favores. 

Os dois livros de Samuel os dois livros dos Reis narram a história da instauração dos reinos de Davi e de seus sucessores, de Salomão a Sedecias. São livros históricos, verdadeiros documentos entremeados de profetas e milagres. Nesses anais aparece uma vez mais a longa paciência de Iahweh educando seu povo. Ao longo de- les persiste a esperança na vinda do Messias (Mashiach)

3. Os profetas posteriores

Em hebraico, são os nevii'm aharonim, os que vêm depois. Há três importantes: Isaías, Jeremias e Ezequiel, e os doze, de Oséias a Malaquias. 

Isaías, 'o consolador de Israel', encoraja os exilados da Babilônia, anunciando-lhes a libertação e o esmagamento dos ídolos. Lembra-lhes a promessa da salvação, o retorno a Jerusalém e o julgamento dos ímpios. Com o servo sofredor de Iahweh virão 'os novos céus e a nova terra'. 

Jeremias, submetido a dura provação, maltratado e atirado na prisão, prega contra a corrupção universal, que clama por castigo divino. Mas em suas sombrias predições e em seus sofrimentos, testemunha a esperança na aliança: 'Virão dias nos quais Iahweh fará germinar para Davi um germe justo, o qual exercerá o direito e a justiça na terra'. 

Ezequiel, deportado, anuncia também, ao mesmo tempo, a ruína e a vinda de um novo Davi, pastor das ovelhas de Israel. Prega a conversão pessoal e a responsabilidade individual: 'Aquele que peca é que morrerá'. Mas Deus 'não tem prazer na morte do ímpio, mas que ele se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos!' 

Entre os 'doze', os mais conhecidos são Oséias, certo de que o amor de Deus vencerá; Amós, o fustigador das injustiças sociais; Miquéias, o anunciador do Messias-salvador, o pastor saído de 'Belém-Éfrata...' 

4. Os escritos ou ketuvim 

Que podem ser chamados 'os diversos! São os três livros poéticos: Jó, Salmos Provérbios; os cinco de poesia ou de sabedoria: o Cântico dos cânticos, livro de Rute, o de Ester, as Lamentações e o Eclesiástico; e enfim: Daniel, Esdras Neemias, e os dois livros das Crônicas. 

A história de Jó e de suas desventuras é conhecida. Inocente, ele clama a Deus, que responde, mostrando seus trabalhos e suas maravilhas. Ele se inclina. Mas esse texto magnífico comunica três ensinamentos: a sabedoria de Deus não é a dos sábios; a virtude não é necessariamente recompensada pelo sucesso terrestre; e o sofrimento pode ser uma pedagogia. 

Cântico dos cânticos não é menos conhecido. É uma seqüência de cânticos de amor, nos quais se pode ver a exaltação de um amor profano. Para o crente, é a imagem do amor de lahweh, o esposo, pela sua amada, o povo que ele escolheu e que se dá a ele. 

Eclesiastes, livro tardio, é uma reflexão sobre a sabedoria e a felicidade. 'Conclusão: teme a Deus e observa seus mandamentos, porque este é o dever de todo homem'."
(continua na parte 2)

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