sábado, 26 de outubro de 2013

REFLEXÃO SEDRAH 133 - DEVARIM 14 (O ANIMAL MORTO)

Shalom, chaverim v'chaverot
por Yossef Michael

Hoje, vamos analisar a passagem de Devarim/Deuteronômio 14:21. No hebraico transliterado temos:
“Lo toch’lu col-nevelah lager asher-bish’areicha tit’nenah va’achalah o machor lenach’ri ki am kadosh atah la’YHWH Eloheicha lo tevashel gediy bachalev imo...”
Em português, “Não podereis comer de nenhum animal que tenha morrido por si. Tu o darás ao forasteiro que vive em tua cidade para que ele o coma, ou vende-lo-ás a um estrangeiro. Porque tu és um povo consagrado ao Eterno vosso Elohim. Não cozerás um cabritinho no leite de sua mãe”.
 - Lo = Não
-  Toch’lu = Comerás
-  Col = Todo
-  Nevelah = Enfraquecido/Murcho/Morto de forma natural/Dilacerado (contexto deste estudo)
e, como alternativa, Insano/Louco/Falso (Ver Bereshit/Gênesis 34:7, Devarim/Deuteronômio 22:21, Yeshaiyahu/Isaías 32:6 e Yirmiyahu/Jeremias 29:23).
-  Lager = Estrangeiro
-  Bish’areicha = Tua porta
-  Tit’nenah = Dar/Conceder
-  Va’achalah = Consumirá/Comerá/Fartar-se-á
-  O = Ou
-  Machor = Venderá
-  Lenach’ri = Estrangeiro (dentre várias outras traduções possíveis)
-  Ki = Porque
-  Am = Povo
-  Kadosh = Separado
-  Atah = Tu
-  La’YHWH = ao Eterno
-  Eloheicha = Teu Elohim
-  Lo = Não
-  Tevashel = Cozerás
-  Gediy = Cabrito
-  Bachalev = No leite (Na gordura)
-  Imo = Mãe

Impressionante!!! 

Ao iniciar o estudo desta passagem, imaginava que encontraria alguma má tradução para a condição do animal que teria uma morte natural, ou algo do gênero, o que talvez me permitisse “divagar” bastante sobre o assunto. Mas, na verdade, o que o hebraico nos propicia é a compreensão da lógica escondida por trás das traduções e do quão maravilhoso é o Eterno, Bendito Seja!!!

As traduções trazem "lager" e "lenach’ri" traduzidas indistintamente por estrangeiro, forasteiro, estranho, sem uma maior preocupação, mas, é justamente no hebraico que o conceito se consolida.
Vemos que Am/Povo Yisra’El (invertendo um pouco a ordem da análise) deveria se “apiedar” daquele estrangeiro (lager), que estivesse habitando com ele dentro de suas cidades, daí a referência a portas, ou no hebraico "bish’areicha", afinal Am/Povo Yisra’El era um povo separado/santo ao Criador.

O povo não deveria comer deste animal, pois, não havia esta necessidade. Por ser temente ao Criador, tudo lhe era garantido. Este é o pano de fundo da passagem! 

Vemos que no início do perek/capítulo, o Eterno orienta justamente isto, para que Seu povo abatesse seus gados, rebanhos, enfim, todos os animais que lhes seriam dados em recompensa pela obediência que deveriam prestar ao Eterno, garantindo assim sua existência.

Voltamos a ver, com bastante clareza, o desejo do Criador para que Yisra’El andasse de forma distinta das nações. A questão da Kashrut (alimentação segundo Levítico 11) tem como fundamento estabelecer aquilo que era considerado adequado (puro) para o consumo de nossos pais e aqui nesta passagem de Devarim/Deuteronômio o constante paralelo entre a idolatria e a alimentação fazem-se muito presentes.

Vários dos alertas mais importantes, se é que assim podemos dizer sobre o modo de vida daquele povo, estão contidos nestes passukim/versículos.

Sabemos que aquelas nações, que deveriam ser subjugadas por Yisra’El, tinham em seus rituais idólatras verdadeiras aberrações como, por exemplo, o comer carne com sangue (mesmo com vida, quem sabe...) e como no final de nosso passuk/versículo em questão, cozinhar um cabrito ainda pequeno no leite de sua própria mãe, denotando um ato de despreso, por que não assim dizer.

Diferentemente disto, Yisra’El tinha, graças ao Eterno, a solução para andar de forma totalmente distinta daqueles povos, a Sua Torah!!!

A Torah é instrução, é vida!!! Ao estrangeiro que havia se achegado ao povo e se estabelecido dentro do arraial, mesmo a carne oriunda de uma morte natural poderia ser dada como alimento, pois, vejamos o que nos diz a Concordância Strong #01616 para ger:

1) residente temporário
   1a) um habitante temporário, alguém recém-chegado a quem faltam direitos herdados
   1b) referindo-se a peregrinos em Israel, embora tenham recebido direitos

A Torah nos mostra que, mesmo aqueles que peregrinavam entre nossos pais deveriam ser alimentados e que para isto não haveria uma restrição, mesmo que a origem daquele alimento não fosse a partir de um abate. Ainda, segundo meu humilde entendimento, aquele "ger" que desejasse, efetivamente, se estabelecer como um natural, abraçando a aliança, circuncidando-se e professando a fé no Elohim Echad/Único teria direito, assim, a alimentar-se também de tudo aquilo que era reservado a Yisra’El.

Mas, então por que havia uma diferenciação para outro grupo de pessoas (lenach’ri) que deveriam comprar (machor) esta carne de nossos pais?
05237 נכרי "nokriy" procedente de 5235 (segunda forma); DITAT - 1368c; adjetivo:
1) estrangeiro, alheio
1a) estrangeiro
1b) estrangeiro (substantivo)
1c) mulher estrangeira, meretriz
1d) desconhecido, não familiar (fig.)

Como vemos acima, procede de 05235 que, por sua vez, procede de 05234:
05234 נכר "nakar" uma raiz primitiva; DITAT - 1368; verbo:
1) reconhecer, admitir, conhecer, respeitar, discernir, considerar
  1a) (Nifal) ser reconhecido
  1b) (Piel) considerar
  1c) (Hifil)
      1c1) considerar, observar, prestar atenção a, dar consideração a, notar
      1c2) reconhecer (como anteriormente conhecido), perceber
      1c3) estar disposto a reconhecer ou admitir, reconhecer com honra
      1c4) estar familiarizado com
      1c5) distinguir, compreender
  1d) (Hitpael) tornar-se conhecido
2) agir ou tratar como estrangeiro ou estranho, disfarçar, confundir
  2a) (Nifal) disfarçar-se
  2b) (Piel)
      2b1) tratar como estrangeiro (profano)
      2b2) confundir
      2c) (Hitpael)
      2c1) agir como estrangeiro
      2c2) disfarçar-se

Vemos que duas interpretações são possíveis, distintas, mas até conciliáveis... O que a Torah pode estar nos dizendo é que aqueles que não faziam parte do povo, isto é, não tinham o interesse em permanecer habitando com nossos pais, sob as instruções da Torah, deveriam sim ser diferenciados ou tratados com distinção, como estrangeiros de fato!!!

Assim, além de não terem direito de participar da alimentação comunal do povo, com animais abatidos especialmente para este propósito, ainda teriam de adquirir sua carne, pagando por ela e que esta só poderia ser conseguida a partir da morte natural dos animais.

Mas, por quê tanta preocupação com a distinção da origem dos alimentos e com quem poderia ou não se alimentar deles?

Primeiro, para privilegiar e separar aqueles que desejavam seguir ao Criador, sendo por Ele cuidados e alimentados. Segundo por uma questão física e operacional. Aquilo que era produzido pelo povo (gados e rebanhos) deveria ser para o povo, enquanto animais mortos de forma natural, além de serem em menor quantidade, ainda eram passivos de disputa com predadores naturais, presentes naquele local. Dessa forma, o Eterno praticava justiça para com Seu povo, sem deixar uma “válvula de escape” para aqueles que peregrinassem entre nossos pais, tanto "ger" como "lenach’ri", ainda que os diferenciassem.

Ainda existe um ponto não abordado neste estudo, mas que não deixa de ser relevante... O lado “sanitarista” do Criador... Um animal que morre naturalmente, pode sim ter morrido por conta de algum tipo de doença, o que levaria sua carne a um estado de contaminação ainda maior e, portanto, ainda mais inadequada para o consumo.

Que fique claro que ao falar de carne para alimentação, obviamente, estamos falando dos animais apresentados em Vayikrah/Levítico 11 e aqui em Devarim/Deuteronômio. Animais fora desta condição não estão sequer sendo considerados para efeito de análise, por não serem alimento.

O Eterno é misericordioso, benevolente e tem um amor incomensurável para conosco!!!

Obviamente no campo da especulação, em Devarim/Deuteronômio 12:21-22, “Se o lugar escolhido pelo Eterno teu Elohim para aí colocar o Seu Nome estiver muito longe de ti, poderás então imolar das vacas e ovelhas que O Eterno teu Elohim te houver dado, conforme te ordenei. Poderás comer nas tuas cidades o quanto desejares. Do mesmo modo como se come a gazela e o cervo, assim as comerás: o puro junto com o impuro”, arrisco a dizer que o “jogo de palavras” aqui contido no final do passuk/versículo 22, refere-se justamente a esta condição do povo (puro) com o “ainda” não povo (impuro) e que através da submissão e reconhecimento do Elohim Echad/Único coabitariam tanto naquela época, como nos Tempos Apontados.

Para tristeza das mais diversas religiões existentes, não tem a menor lógica, seja no português mal traduzido ou mesmo no hebraico para alegar-se algum tipo de “liberação” de ingestão de animais impuros!

Que o Eterno, Bendito Seja, nos permita enxergar esta distinção, muitas vezes velada e “escondida” nas profundezas do coração de cada um, entre o "ger" e o "lenach’ri" ...

Chazak, Chazak Venit Chazek!!!
Força, força e que sejamos fortalecidos!!!

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