terça-feira, 8 de janeiro de 2013

ORIGENS JUDAICAS DO CRISTIANISMO (parte II)

Origens judaicas do Cristianismo 
(Reflexões sobre a história das religiões – parte II)

Como se separaram as duas correntes judaicas? Como o Cristianismo se tornou uma religião hegemônica? Vejamos alguns aspectos deste intrincado problema.

Os judeus constituíam uma religião permitida e tolerada no Império (religio licita), pois já existiam antes da conquista romana. Os romanos eram muito legalistas e desta forma impediam certo tipo de revoltas: as religiões pré-existentes, não eram perseguidas ou discriminadas. O Judaísmo era legalmente permitido, mas as suas dissidências não o eram. O Cristianismo se expandiu e cresceu inicialmente como um grupo judaico. Os apóstolos pregavam nas sinagogas da Ásia Menor e da Grécia, e eram recebidos, alimentados e protegidos pelos judeus destas comunidades. Suas pregações eram feitas para judeus, mas atingiam um outro grupo, que não nascera judeu, mas que se sentia atraído pelas idéias do Judaísmo. Os denominados prosélitos da porta ou “sebomenoi” (termo em grego que significa “tementes de D-us”) eram não judeus que freqüentavam a sinagogas, rezavam e ouviam as leituras da Torá e as prédicas, mas não consumavam sua conversão por algumas razões, sendo as principais, a circuncisão e a rígida prática de mitzvót ou preceitos da Torá que devem praticar os convertidos. Estes semi-prosélitos faziam parte de um grupo que crescia com a decadência moral do Império e a perda dos valores tradicionais da civilização greco-romana, e com o hedonismo (materialismo) que grassava no Império. A espiritualidade e os valores judaicos os atraíam; a circuncisão e o rígido ritualismo dos preceitos os continham.

Nesta época um judeu helenizado se junta aos Apóstolos. Diferentemente do grupo pioneiro, que se compunha de judeus tradicionais de Israel, tratava-se de um judeu cosmopolita, helenizado e culto. Era Paulo de Tarso, discípulo do rabi Gamliel, que inicialmente perseguira e criticara os judeus-cristãos. Paulo percebe que havia um enorme potencial nos semi-prosélitos e convence os outros apóstolos e seguidores de que dever-se-ia adotar uma mudança de tratamento aos gentios. Estes não precisavam ser circuncidados e não precisavam se dedicar ao estudo da Torá e às práticas das mitzvót. Esta decisão foi tomada no denominado Concílio de Jerusalém, cuja data alguns consideram tendo sido em 49 e outros em 55 d. E.C. Essa decisão determina a definitiva separação de judeus e cristãos. Ainda seguem existindo alguns judeus-cristãos, mas este grupo desaparecerá e perderá importância com o passar do tempo. O número de prosélitos cristãos crescerá muito, pois o entrave da circuncisão e dos preceitos deixa de existir.

Na década seguinte um outro fato aguça a separação: já discriminados pelas comunidades judaicas em alguns lugares, os cristãos não se aliam aos judeus na luta contra Roma iniciada em 66 d.E.C. Os judeus lutam desesperadamente para se livrar do jugo de Roma. A derrota se configura em 70 d.E.C. com a tomada e a destruição de Jerusalém e do Templo Sagrado (Beit ha Mikdash). A situação dos cristãos não era muito boa. O governo imperial romano inicia um ciclo de perseguições que não cessa em 250 anos. São cerca de dez grandes perseguições deflagradas por dez imperadores diferentes, numa média de uma perseguição a cada vinte e cinco anos. Cristãos são massacrados, torturados e mortos pelo exército imperial. A pergunta que se faz é: como os cristãos foram perseguidos e martirizados por Roma e fizeram desta, a capital da Cristandade? Como o Cristianismo foi oprimido e perseguido e tornou-se uma religião hegemônica? Se os romanos perseguiram os primeiros cristãos, crucificaram Jesus (já que a pena de morte judaica era o apedrejamento) e martirizaram seus seguidores por dois séculos e meio, puderam se tornar aliados dos mesmos?

A evolução do Cristianismo consumou sua forte presença em centros urbanos do Império. Sua presença numérica nas “poleis” e “urbs” imperiais criou um fato. Qualquer candidato a Imperador, deveria ter uma relação adequada com a nova religião. A disputa pelo poder no final do século III e início do século IV fez com que se confrontassem governantes-generais poderosos que almejavam se tornarem Imperador sem compartilhar o poder com outros como ocorria na Tetrarquia (sistema de governo criado por Diocleciano). Um destes candidatos ao poder decreta um édito de tolerância em 311 (Galério); seu opositor era Constantino, que declara o final das perseguições e uma condição plena de tolerância ao Cristianismo (313), pelo Édito de Milão. Este Imperador, (306-337) viria a convocar e coordenar o Concílio Ecumênico de Nicéia em 325 d. E.C., tendo sido este um marco fundamental na história da Igreja. Seus sucessores (com a exceção de Juliano) serão cristãos e apoiarão em medidas variadas a religião cristã, ainda que pendendo ora para o “catolicismo”, ora para a heresia cristã “ariana” (não há relação direta com o arianismo dos séculos XIX e XX).

Finalmente, com Teodósio o Grande (378-395) se consolida a aliança do Império e da Igreja. A partir deste momento temos uma política discriminatória contra os judeus.

Sendo o Império bastante legalista e mantendo o Direito Romano como uma das bases da sua existência e ordenação, não retirou dos judeus sua condição de minoria tolerada. Mas em sintonia com a Igreja iniciou uma vasta codificação que restringiu os direitos judaicos e retirou dos judeus alguns privilégios e autorizações.

Os judeus serão proibidos de ter escravos cristãos e pagãos por haver sempre a possibilidade de que os convertessem ao Judaísmo. Circuncidar um escravo era punido com a pena de morte ao seu executor. Converter alguém ao Judaísmo se torna um “crime de lesa-majestade”, ou seja, um crime contra a segurança pública. Isso excluirá os judeus do trabalho na terra, pois sem escravos isso se tornava impossível, na realidade tecnológica daqueles tempos. Este fato explica o distanciamento dos judeus da terra.

Os casamentos de judeus com mulheres cristãs também são proibidos, já que havia grande possibilidade destes converterem suas esposas ao Judaísmo. Os judeus são excluídos de cargos de comando e de todo o tipo de poder político e militar. Não podem ostentar poder e nem superioridade diante de seus “vizinhos” cristãos.

Há leis que se aproximam do absurdo. As sinagogas já existentes não seriam destruídas, mas não poderiam ser construídas novas nem reformadas as existentes. O topo do prédio das sinagogas não pode superar as torres das Igrejas. Isto se refletirá na arquitetura das imensas catedrais versus as sinagogas de tamanho reduzido. Uma rara exceção é a sinagoga renascentista de Florença que se eleva no mesmo nível da linda catedral florentina. Os judeus deviam sentir que eram inferiores. A legislação cuida de detalhes diversos que excluem dos judeus o poder e a possibilidade de converter novos prosélitos, os exclui e restringe sua ação pública, colocando-os na periferia social e os marginaliza. A definitiva separação da Sinagoga e da Igreja se consuma. Os Padres de Igreja (nome que se dá aos seus fundadores) tratarão de provar a verdade da fé cristã e a falsidade do Judaísmo, numa releitura dos textos sagrados que demonstre que os judeus não entendem os seus escritos (Torá e Profetas) e que estes textos são uma previsão da vinda de Cristo e da verdade do Novo Testamento. Cria-se uma exegese cristã que trata de provar a falsidade do Judaísmo, para demonstrar a verdade da nova fé.
Disso falaremos na próxima edição.

* Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor em História pela UFPR.

fonte: http://www.visaojudaica.com.br
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Nota pessoal:  (Tendo se afastado do Judaísmo e seus preceitos e se efetivado, no século III, como uma religião, o Cristianismo deixou de professar uma fé puramente monoteísta (como o Judaísmo), criando uma "nova regra de fé e prática" à margem do Tanach e Torah - o chamado Novo Testamento, que o desobrigava das práticas da Torah e Suas Mitzvot e tinha o Imperador como a voz suprema de Elohim).
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4 comentários:

  1. Uma das coisas que fizeram para afastar u Judaismo do Cristianismo fou mudar o dia de guarda - Sábado - para o dia de domingo - o dia do sol. Um material excelente muito documentado da estratégia romana neste sentido está no livro do PHD Dr. Bacchiocchi- Do Sábado Para o Domingo - que qualquer um poderá ler em : http://adventismoemfoco.files.wordpress.com/2008/11/tese-do-phd-dr-bacchiocchi-do-sabado-para-o-domingo.pdf - inclusive contando com a CONCORDÂNCIA E IMPRIMATUR da igreja Católica - leia, vale as pena...

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    1. Na realidade, o afastamento da "Torah" leva a uma série de equívocos e sofismas que, só retornando verdadeiramente às "Veredas Antigas" podem ser compreendidos e reparados, e isso não é fácil, pois exige quebra de paradigmas.
      Já fui adventista e só fui entender muitas coisas que questionava quando descobri minhas raízes judaicas e aprendi a entender a Bíblia do ponto de vista semita, sem "interpretações".
      Shalom!

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  2. O que seriam estes "sofismas e paradigmas" ???

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  3. As adições e interpretações decorrentes do desconhecimento da cultura semita Bíblica e da influência de Roma.
    Shalom!

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