terça-feira, 8 de janeiro de 2013

ORIGENS JUDAICAS DO CRISTIANISMO (parte I)

Origens judaicas do Cristianismo 

(Reflexões sobre a história das religiões - parte I)

Este artigo leva como titulo um breve e valioso livro de Hugo Schlesinger e Padre Manuel Porto, que tem o mesmo titulo. Minha intenção é homenageá-los, pela magnífica forma com que dialogaram e ajudaram a diminuir o preconceito e a discriminação. Utilizaremos algumas de suas reflexões e informações para refletir sobre como as duas primeiras (das três) religiões monoteístas, se afastaram e iniciaram um longo período de confronto e perseguições aos judeus pela Cristandade. Alguns mitos e algumas desinformações surgiram através dos tempos e tentaremos dirimi-las ou reinterpretá-las. 

No período do Segundo Templo (530 a.E.C. – 70 d.E.C.) os judeus entraram em contato com a cultura grega difundida por Alexandre Magno e seus sucessores que fundaram reinos helenísticos na Ásia Ocidental e no Egito. Reinos como o Egito dos reis Ptolomeus, cuja capital era a magnífica cidade de Alexandria, fundada pelo conquistador macedônio. A cidade era um grande centro cultural e sua célebre biblioteca era uma referência do saber e da cultura grega ou helenística. Nela ocorreram diálogos e conflitos entre judeus e as populações gregas ou egípcias helenizadas. Ora se chocavam e ocorriam lutas armadas entre os dois grupos. Os judeus eram considerados cidadãos de Alexandria, mas eram isentos de cultuar os deuses cívicos (os deuses da cidade, que estavam num panteão público). No lugar faziam preces ao rei Ptolomeu e ofereciam um sacrifício em sua homenagem no templo de Jerusalém, mas sem considerar sua condição divina ou cultuar os deuses da cidade (pólis). Isso irritava os seus concidadãos alexandrinos: tinham os mesmos direitos, mas eram isentos de certos deveres. Por outro lado os judeus esqueceram a sua língua sagrada (hebraico) e falavam o grego. Ficaram sem compreender o texto revelado das Escrituras, ou seja, a Torá ou Pentateuco (cinco primeiros livros da Bíblia hebraica, também denominada Lei de Moisés). Ainda que lido na sinagoga, não era compreendido pelos ouvintes. Esse conhecimento era fundamental para seguir sendo judeu: para praticar as mitzvot (613 preceitos) era preciso saber ler e entender a Torá. O que fazer? 

Conta a “lenda” que o rei Ptolomeu II resolveu patrocinar a tradução da Torá ao grego. Contatou com o Sumo Sacerdote (Cohen Hagadol) que administrava o autogoverno judaico em Jerusalém, lhe solicitando que enviasse um grupo de sábios versados na Lei de Moisés (Torá) e que soubessem hebraico e grego, com condições de traduzir o texto da Torá. A tradução foi feita por setenta e dois sábios, colocados em quartos separados e sem poder se comunicar de nenhuma maneira durante o tempo que durou seu trabalho. Assim cada um realizou sua versão da tradução, absolutamente sem saber o que o outro fizera. Ao final as setenta e duas traduções eram absolutamente iguais. Não havia sequer um detalhe que as distinguisse. Esta versão da Bíblia hebraica foi denominada “A versão dos Setenta” ou Septuaginta. Servirá para os judeus helenizados seguirem sendo judeus e conhecendo suas Sagradas Escrituras. Por outro lado aproximará os “não judeus” ou “gentios” da Bíblia hebraica (não usamos o termo Antigo Testamento por achá-lo impregnado de ideologia e de julgamento de valor). Alexandria e Antióquia (outra cidade helenista, localizada na Ásia Ocidental) servirão de palco para debates e confrontos entre judeus e helenizados. Uns influenciarão os outros, mesmo se antagonizando. Um pensador judeu deste período, Fílon de Alexandria, demonstra que a religião judaica não entra em contradição com a filosofia grega. Ele analisou e comprovou que os trechos aparentemente contraditórios, existentes na Revelação (Palavra de D-us), poderiam ser entendidos como sendo simbólicos ou alegóricos, não havendo contradição entre Razão/Lógica X Fé/Religião. Esta leitura alegórica já era utilizada para evitar a contradição entre o Mito grego antigo e a filosofia pré-socrática (criada um pouco antes de Sócrates/Platão). Assim, Fílon abre o caminho para o diálogo entre o Judaísmo e o Helenismo. Em Alexandria e Antioquia os judeus se tornarão fortemente influenciados pelo pensamento helenístico. Estes judeus helenizados serão o principal público para os primeiros pregadores cristãos, em especial os apóstolos. 

Jesus o Nazareno (assim se costuma chamá-lo entre os pesquisadores judeus, pois Cristo significa Messias, e implica num reconhecimento desta condição), nasceu e viveu entre judeus. A tradição cristã enfatiza seu nascimento em 25 de dezembro, e sua circuncisão teria sido efetuada em 1º de janeiro. O reveillon celebra a circuncisão de Jesus. Esse fato tem sido escondido por anos a fio, mas em alguns dos calendários antigos se dizia que a data se denominava “circuncisão universal”. Como um bom judeu, conhecia e praticava as festas judaicas. Freqüentava o Templo, fazia as peregrinações em Pessach, Shavuot e Sucot. E conhecia muito bem, a profecia messiânica de Isaías (Yeshaiahu), de quem cita e referencia seguidamente trechos, de acordo ao registro dos escribas cristãos que compilaram os Evangelhos. Seus seguidores, em especial os denominados Apóstolos, eram judeus de Israel, praticantes e ortodoxos. Não se conformam com certas práticas adotadas pelas camadas dominantes. Acham um desrespeito o comércio nos átrios do Templo Sagrado, o desrespeito pela espiritualidade, e a não prática dos preceitos e da Lei. Quando questionado sobre a Torá e sobre sua prática, Jesus afirma: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas: não vim para revogar, vim para cumprir” (Mateus, cap. 5, vers. 17). Sua critica se insere na realidade messiânica do período. Há quem afirme que tenha sido discípulo dos essênios que viviam em comunidades ascéticas na região do deserto da Judéia e de quem sabemos muitas coisas devido à descoberta dos Rolos do Mar Morto em Kumran (Qumran), em 1947. Qualquer semelhança não nos parece mera coincidência. Sua crítica aos saduceus e fariseus era coerente com muitas das críticas de diversos grupos místicos e dissidentes existentes em Israel neste período. 

Jesus guardava o Shabat, colocava o talit (xale ritual com as franjas ( ) e comia matzá no Pessach. Não se diferenciava de nenhum judeu ortodoxo de sua época, salvo nas idéias místicas e nas críticas a postura da classe dominante e seu materialismo. Muitos escritores acreditam que se tratava de uma seita judaica e parece-nos que fora assim até um preciso momento. Durante a pregação de Jesus, este se limitou aos judeus e não pregou aos gentios (goim ou outros povos). Não teriam entendido sua mensagem, pois era judaica. Suas críticas incomodaram aos romanos e aos elementos relacionados à classe dominante. Apesar da versão vigente por séculos, demonstra-se que não foi “morto” pelos judeus, e sequer pela condenação pública de seus irmãos. Alguns livros tal como o de John Dominic Crossan (Quem matou Jesus? Editora Imago), o livro de Jules Isaac (Jesus e Israel, Ed. Perspectiva), e as muitas e detalhadas obras de Hugo Schlesinger e do Padre Porto, abrem uma ótica bem diversa desta inverdade e deste mito de que os judeus mataram Jesus. Isso foi alimentado através dos tempos por setores da Igreja que estavam em confronto com os judeus por razões diversas, mas geralmente pela verdadeira analise das Escrituras. No próximo artigo refletiremos sobre isto.

* Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor em História pela UFPR.


fonte:  http://www.visaojudaica.com.br

2 comentários:

  1. Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo, eu já tinha uma ideia formada que pode parecer esdrúxula: nada de Bíblia, teologia e história das religiões. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado à conclusão alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no máximo, sabiam que o que se pensava saber não era verdade. Dentro desses limites reina a teologia e não a história. É isso o que a nossa cultura espera de nós, pois não tolera indiscrições. Como o mundo não havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histórica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros séculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro “Jesus existiu ou não?”, de Bart D. Ehrman, exponho algumas das conclusões as quais cheguei e as quais o meio acadêmico de forma protecionista insiste ignorar.

    http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver

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  2. Shalom, Ivani. Faço minhas as conclusões do autor da pesquisa: " Opiniões solidárias ou não com o fato em nada vão influenciar no curso que a história já tomou. Sabemos disso."

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