domingo, 6 de janeiro de 2013

INTERPRETAÇÃO JUDAICA DAS ESCRITURAS


I - Introdução

(foto extraída da internet)
Muito se diz sobre o fato de que devemos rever nossa maneira de lermos e estudarmos as Escrituras. Devemos, acima de tudo, resgatar a forma que Yeshua e seus primeiros talmidim (discípulos) estudavam, ouviam e compreendiam a interpretação bíblica. Isso é fundamental para que compreendamos, por exemplo, as exposições feitas especialmente na Bʼrit Chadashá (“Novo Testamento”), onde autores como Shaʼul (Paulo), Matitiyahu (Mateus) e Lucas, utilizam tais técnicas para estruturarem sua teologia, e até mesmo seus argumentos em favor da Messianidade de Yeshua.

Para ajudar neste processo, estamos dando início a esta série que investigará as formas de interpretação judaica das Escrituras, desde os primórdios do Judaísmo, compreendendo como evoluiu o pensamento judaico.

II - O Midrash: A forma mais antiga

A forma mais antiga de interpretação das escrituras é conhecida como “midrash.” Sua primeira ocorrência aparece nas Escrituras em Divrei HaYamim (2 Crônicas) 13:22, que diz:
“Quanto aos demais atos de Aviyah, tanto o que fez como o que disse, estão escritos no livro de Midrash do profeta Ido.”  (*)

O termo “midrash” deriva de “ דרש ” (drash) que significa buscar ou inquirir. Em outras palavras, o “midrash” é aquilo que é buscado nas Escrituras. Ou seja, o “midrash” era nada mais do que uma interpretação do texto, na busca de um sentido que vá além do texto literal.

Nos tempos rabínicos ( ) as técnicas de midrash se subdividiam em duas categorias: Midrash Hagadá e Midrash Torá (ou “Midrash Halachá”).

III - Midrash Hagadá

O termo “hagadá” significa “narrativa”, e portanto o “midrash hagadá” consiste na “investigação das narrativas”, de forma a extrair lições presentes, a partir das histórias dos patriarcas e outras narrativas bíblicas.

A Enciclopédia Judaica define o objetivo do “midrash hagadá” da seguinte forma: “[Midrash Hagadá] interpretava todo conteúdo histórico da Bíblia de uma forma religiosa e nacional tal  que os heróis do tempo antigo tornavam-se protótipos, enquanto a história do povo de Israel, glorificada à luz das expectativas messiânicas, tornava-se uma revelação contínua do amor e da justiça de Elohim.”

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3) Exemplo da Mekilta

Apenas a título de ilustração, oferecemos mais um exemplo, desta vez da Mekilta. A Torá diz o seguinte em Shemot/Êxodo 17:11: “E acontecia que, quando Mosheh levantava a sua mão, Israel prevalecia; mas quando ele abaixava a sua mão, Amalek prevalecia.”

A Mekilta diz o seguinte acerca dessa passagem: Acaso as mãos de Moshe ajudou Israel a vencer ou destruiu a Amalek? Nenhum dos dois, mas, enquanto ele apontava sua mão para cima , os israelitas olhavam para cima [ie. para o céu] e criam nAquele que ordenara a Mosheh a fazer tal coisa, e o Sagrado, Bendito seja Ele, lhes assegurava maravilhas e vitória.”

O exemplo acima é um Midrash Hagadá, pois utiliza o tema da narrativa da batalha com Amalek para ilustrar o ponto de que, na realidade, o que assegura a vitória a Israel é a fé em Elohim.

Conclusão

O Midrash Hagadá é sempre uma forma interessante de extraírmos lições espirituais preciosas. Porém, ao lermos uma exposição de Midrash Hagadá (especialmente se vier de um comentário rabínico), nem sempre devemos levá-la ao pé-da-letra, pois por definição o Midrash Hagadá é uma releitura de um evento. Às vezes, contudo, o Midrash Hagadá pode indicar uma realidade espiritual mais profunda por trás da narrativa ( ).

Como Aplicar

Não é difícil aplicarmos as técnicas de Midrash Hagadá para fazermos nossos próprios estudos e prepararmos, por exemplo, prédicas ou outros. Para isso, basta elegermos uma história da narrativa bíblica e nos perguntarmos as algumas coisas:

✓ Que realidade espiritual pode estar por trás dessa história?
✓ Que lição de vida podemos tirar dessa narrativa?
✓ Como essa narrativa se compara com o nosso dia-a-dia?
✓ Como essa narrativa se compara com a evolução de nossa vida espiritual?
✓ A que princípios bíblicos essa narrativa se assemelha?
✓ Como posso trazer o espírito da narrativa para os dias atuais?
✓ O que essa narrativa nos diz sobre a ação ou o caráter de Elohim?
✓ Como essa narrativa se compara com ensinamentos posteriores, como por exemplo os ditos de Yeshua ou dos seus shʼlichim (emissários)?

Essas são apenas algumas diretrizes que poderiam orientar na concepção de um Midrash Hagadá bem-sucedido. Tenhamos sempre em mente, todavia, que sempre que analisamos as Escrituras sob uma ótica mais profunda, devemos tomar cuidado para que o resultado não fira as próprias Escrituras, nem o seu contexto geral ou mesmo específico. Em outras palavras, o Midrash Hagadá não pode ser utilizado como pretexto para a criação de doutrinas extra-bíblicas.

IV - Midrash Torá (Midrash Halachá)

O outro tipo mais antigo de Midrash que se encontra é o Midrash Torá, que é também conhecido como Midrash Halachá. 
O termo “halachá” deriva do verbo להלך“ ” (lehalech) que significa “caminhar.” Em termos bem genéricos, “halachá” refere-se à forma como se “caminha”, isto é, a forma como se “vive” a Torá, na prática.
O Midrash Halachá nada mais é do que uma técnica para se extrair conclusões sobre assuntos que a Torá não aborda diretamente, mas que podem ser resolvidos através de uma “busca” em todas as Escrituras, juntando e comparando informações, e em alguns casos aplicando algum grau de dedução.

1) Exemplo da Mishná

Um exemplo de Midrash Halachá: Na Mishná, em Berachot 10b, é dito que a Casa de Shamai afirmava que o Shemá deveria ser recitado quando a pessoa acordasse, antes de se levantar da cama. A Beit Hillel afirmava que o importante era o recitar do Shemá pela manhã, independentemente da posição corporal.

O texto da Torá diz o seguinte: “E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te.” (Devarim/Deuteronômio 6:7)

Um exemplo de como poderíamos fazer um midrash halachá.

A Torá traz em Shemot/Êxodo 9:13 a seguinte ordem de Elohim a Moshe: “Então disse YHWH a Moshe: Levanta-te pela manhã cedo, e põe-te diante de Faraó, e dize-lhe: Assim diz YHWH Elohim dos hebreus: Deixa ir o meu povo, para que me sirva.”

Evidentemente, Moshe não dormiu na presença de Faraó, e falou com ele imediatamente ao abrir os olhos. Sendo assim, podemos concluir que o levantar-se refere ao período matinal, e não necessariamente ao primeiro movimento paralelo ao de erguer-se do leito. Portanto, podemos concluir que a recitação do Shemá deve ser feita pela manhã, e que a Beit Hillel está correta em seu entendimento.

Esse é um exemplo de como é possível fazer um midrash halachá.

2) Exemplo do Sifrei Bamidbar

O Midrash Halachá também é uma forma de deduzir alguns princípios da Torá a partir do contexto. Vejamos um exemplo: A Torá diz em Bamidbar/Números 9:10-11: “Fala aos filhos de Israel, dizendo: Quando alguém entre vós, ou entre as vossas gerações, for imundo por tocar corpo morto, ou achar-se em jornada longe de vós, contudo ainda celebrará o Pessach a YHWH. No mês segundo, no dia catorze à tarde, a celebrarão; com pães ázimos e ervas amargas a comerão.”

Aqui a Torá estabelece que alguém poderia celebrar o Pessach Sheni (Segundo Pessach) por estar impuro devido a contato com o morto, e assim incapacitado de ir ao Beit HaMikdash (Templo), e também por razões de viagem.

Ora, o contato com o morto não é a única coisa que impediria a pessoa de subir ao Beit HaMikdash (Templo.) Qualquer tipo de impureza o afastaria do Beit HaMikdash. Se ele tivesse, por exemplo, tsaraʼat - a doença de pele descrita em Vayicrá/Levítico 14, estaria afastado do arraial de Israel. O que dizer de uma pessoa que tivesse tsaraʼat à época do Pessach, mas estivesse limpa à época do Pessach Sheni?

Sifrei Bamidbar 69 estabelece um Midrash Halachá que a Torá dá apenas um exemplo de tipo de impureza, e entende que pessoas que tivessem contaminação por outros tipos de impureza, e assim estivessem impedidos de subir ao Beit HaMikdash (Templo), poderiam igualmente participar do Pessach Sheni - o que faz total e pleno sentido.

Outro exemplo que podemos ter em mente é o do cozinhar nas Festas Bíblicas. A Torá diz: “Não acendereis fogo em nenhuma das vossas moradas no dia do Shabat.” (Shemot/
Êxodo 35:3)

3) Exemplo Geral

As Festas Bíblicas têm restrições e recomendações semelhantes às do Shabat: restringe-se o trabalho, e solicita-se reunião solene. Mas a Bíblia nada fala especificamente sobre acender ou não o fogo em todas as festas bíblicas.
Porém, a Bíblia diz, ao falar do primeiro e do último dias de Chag HaMatsot (Festa dos Pães Ázimos): “E ao primeiro dia haverá santa convocação; também ao sétimo dia tereis santa convocação; nenhuma obra se fará neles, senão o que cada alma houver de comer; isso somente aprontareis para vós.” (Shemot/Êxodo 12:16)
O termo “mikrá kodesh” (santa convocação) é também usado para se referir a outras festas bíblicas. Apesar de posteriormente terem sido referidas como “Shabat”, nenhuma das festas bíblicas é chamada dessa forma na Torá, à exceção do Yom Kipur (em que nem faria sentido a discussão sobre fogo, pois faz-se jejum nesse dia.) Festas como Shavuʼot (“Pentecostes”) e o primeiro dia de Sukot (Tabernáculos) são chamadas de “mikrá kodesh.”
Como a única passagem que diferencia um dia unicamente de “mikrá kodesh” de um Shabat convencional é a passagem supracitada, praticamente todas as vertentes do Judaísmo (inclusive ortodoxos e caraítas) concluem que nas Festas Bíblicas é permitido cozinhar a refeição do dia. 
Esse é mais um exemplo de Midrash Torá ou Midrash Halachá.

Conclusão

O Midrash Torá (ou Midrash Halachá) é um dos recursos de interpretação bíblica mais preciosos para quem quer entender como é o viver bíblico. Em especial, o viver a Torá. Muitas vezes, a resposta das questões pode estar em diversos pontos das Escrituras.

Como Aplicar

Fazer um Midrash Torá é mais complexo do que um Midrash Hagadá, pois requer um bom conhecimento das Escrituras. Todavia, hoje temos um recurso bastante interessante que são os programas e websites de pesquisa nos textos bíblicos.

Um Midrash Torá é, por definição, fazermos uma tentativa de responder a uma questão que a Bíblia não necessariamente expõe de forma simples e literal. Para fazer isso, é necessário tomar os seguintes passos:

✓ Familiarize-se com a questão, e certificar-se de que a Bíblia não possui uma recomendação direta sobre o tema.
✓ Se a Bíblia responde a questão parcialmente, procure pensar no espírito da coisa. Em outras palavras, que princípio a Bíblia está ensinando?
✓ Pesquise nas Escrituras por palavras relacionadas a este tema, de modo a estabelecer suas conclusões.
✓ Tome cuidado com traduções. Palavras hebraicas diferentes podem apresentar uma mesma tradução. Utilize uma concordância, se necessário, para se certificar de que os textos bíblicos tratam sobre o mesmo tema.
✓ Procure prestar atenção em possíveis exemplos narrativos. Embora o Midrash Halachá não seja feito sobre narrativas, a prática de Torá de um ou outro personagem bíblico podem ajudar a esclarecer a questão.
✓ Consulte soluções de outras pessoas ou grupos judaicos sobre o mesmo tema. Por exemplo: o que diz o Judaísmo Ortodoxo sobre a questão? E procure entender as razões para isso. Nem sempre concordamos com outras vertentes judaicas, mas elas sempre podem ser fonte de consulta.
✓ Consulte pessoas com mais experiência na Torá, de modo a enriquecer o debate.
✓ Lembre-se: A sua interpretação pode não ser a única possível. Assim sendo, encare sempre uma halachá com bastante humildade, e saiba dar o devido espaço para outras conclusões.
✓ Seu Midrash Torá jamais deve ferir o texto literal das Escrituras, nem o seu princípio.
✓ Se você faz parte de uma kehilá (congregação), lembre-se sempre que o grupo precisa ter unidade de halachá. Apresente sempre seu Midrash Torá ao líder e/ou aos zakanim (anciãos), para fins de debate.

Devemos ainda tomar muito cuidado para que o método de “busca” nas Escrituras não leve a descontextualizações perigosas. Se soubermos respeitar o contexto, essa forma de estudo é bastante poderosa para pautarmos nossa conduta de forma muito sólida nas Escrituras.
por Sha'ul Bentsion
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(*) Livros perdidos mencionados na Bíblia
http://quransearch.com/lost_books.htm
http://www.bibleufo.com/anomlostbooks1.htm

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