terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O NATAL E O MITO DE NIMROD, SEMÍRAMIS E TAMUZ (2/3)


Características gerais de Tamuz
Além de ser sempre chamado de “pastor” em quase todas as referências em que aparece, a morte de Tamuz também aparece figurativamente associada ao fim da época da colheita, conforme pode ser visto abaixo:
“Seu lamento é para o grande rio onde nenhum salgueiro cresce; seu lamento é por um campo, onde o milho e as ervas não crescem. Seu lamento é por um poço, onde os peixes não crescem; seu lamento é para um matagal de juncos, onde os juncos não crescem mais. Seu lamento é para os bosques, onde tamariscos não crescem. Seu lamento é pela profundidade de um jardim de arvores, onde o mel e o vinho não crescem. Seu lamento é pelos campos, onde nenhuma planta cresce. Seu lamento é para um palácio, onde o comprimento da vida não cresce”. (Lamentos das flautas por Tamuz)
“Meu filho não vive mais... O pastor, o senhor Tamuz, não vive mais... O poderoso rei da terra não vive mais. Quando ele adormece, as ovelhas e carneiros também adormecem. Quando ele adormece, os bodes e os filhotes também adormecem... O deus do grão, o filho, teu senhor, foi destruído”. (Salmo na flauta de Tamuz)
Observa-se que Tamuz é chamado de deus do grão, e nos hinos de lamento a ele está associado o cessar de uma série de atividades. Considerando que o mês de Tamuz, do calendário babilônio, bem como no calendário rabínico – que nada mais é do que o mesmo calendário importado; e no calendário turco, referem-se à época por volta de julho/agosto, provavelmente a morte de Tamuz está associada ao fim do verão. O outono é a transição entre o verão e o inverno, e provavelmente o fato de que a colheita ia gradativamente ”adormecendo” estaria associada à morte de Tamuz, possivelmente no início do outono.
No término do texto “A descida de Inana ao Mundo Inferior”, é dito que se esperaria que Tamuz, enviado ao mundo inferior pela própria Inana em seu lugar, um dia retornaria.
“Para Dumuzi, o amante de sua juventude; Lava-o com água pura, unge-o com óleo doce, veste-o em robe vermelho, e que a flauta lápis lazuli toque; que moças festeiras levantem grande lamento... No dia que Dumuzi voltar, e a flauta lápis e o anel carmesim vieram com ele, prateadores macho e fêmea virão com ele; os mortos se levantarão e cheirarão a oferta de fumaça”. (A desida de Inana ao mundo inferior)
Todavia não se tem o texto acima completo, e não se sabe com precisão se o retorno de Tamuz estaria de alguma forma associado ao retorno do verão. Completamente ausente, todavia, da mitologia babilônia é alguma conexão entre Tamuz e o solstício de inverno.
  • Semíramis
Semíramis ou Sammu-ramat, foi uma rainha babilônia que assim é descrita:
“Sammu-ramat, grego Semíramis, rainha assíria que se tornou uma heroína lendária. Sammu-ramat era a mãe do rei assírio Adadi-Mirari III (reinou 810-783 A.C.). Sua estela (haste de pedra memorial) foi encontrada em Ashur, enquanto uma inscrição em Calá (Nimrud) mostra que ela lá dominou após a morte de seu marido, Shamshi-Adad V (823-811 A.C.). Sammu-ramat foi mencionada por Heródoto, e o historiador posterior Didorus Siculus [N. T. historiador grego doséculo1 A. C.] elaborou toda uma lenda sobre ela. De acordo com ele, ela nasceu de uma deusa,e, após ter se casado com oficial assírio, ela cativou o rei Ninus por sua beleza e valor, e se tornou sua esposa. Logo depois, quando Ninus morreu, Sammu-ramat assumiu o poder e reinou por muitos anos. Naquele tempo, ela edificou a Babilônia e se voltou para conquistas terras distantes”. (Sammu-ramat – Encyclopaédia Britânica).
Observa-se por essa descrição que Semíramis foi uma rainha que viveu muito tempo depois de Nimrod e também do mito de Tamuz. A única conexão aparente é o nome da cidade Calá, mesma cidade onde Nimrod teria reinado muitos séculos antes. E é justamente por essa razão que os árabes, baseando-se no relato de Bereshit (Gênesis), muitos séculos depois se batizariam de “Nimrud”.
As informações históricas sobre Semíramis apenas indicam que ela foi uma rainha importante, especialmente após a morte de seu marido, mantendo-se à frente de Bavel (Babilônia). 
  • A lenda de Diodorus Siculus
Além da informação histórica sobre Semíramis, Diodorus Siculos, historiador grego do século 1 A.C. narra a seguinte lenda sobre Semíramis:
“Ascalom é uma cidade na Síria, e próxima a ela ha um largo, e profundo lago abundante em peixes, na margem do qual prevalece a fama de uma notória deusa a quem os sírios chamam Derceto. Essa deusa tem a face de uma mulher, mas todo o resto de seu corpo é de um peixe... Agora Derceto, após ter aproveitado os braços desse sírio, deu a luz uma filha; mas tendo vergonha de seus atos pecaminosos, matou o jovem homem e abandonou o bebê para morrer... Agora, esse homem não tinha filhos, então educou este infante com cada cuidado como se fosse sua própria filha, e a concedeu o nome de Semíramis, a própria palavra que língua dos sírios significa “pombas”. Então na essência, essa é a lenda que eles contam do nascimento de Semíramis... Agora, após a morte dessa ranha, Ninyas, o filho de Ninus e Semíramis, a sucedeu ao trono, mas não emulou o amor de sua mãe pela guerra ou bravura de espírito”. (Antiguidades da Ásia, livro II)
Não está claro se essa lenda foi criada pelo próprio Diodorus Siculus, conforme afirma a Britânica, ou se o historiador simplesmente relata uma lenda regional. Nessa lenda Semíramis é tornada filha de uma deusa, Derceto, e torna-se uma rainha guerreira. Não há qualquer conexão aparente com Nimrod, Tamuz, nem qualquer menção a uma ressurreição de um filho. Pelo contrário, segundo o relato de Diodorus Siculus, o filho de Semíramis chamava-se Ninyas, e foi apenas um rei de expressão inferior. Siculus afirma ainda que o esposo de Semíramis, a quem ele chama apenas de “Ninus”, teria sidoo fundador de Nineve:
“Ele nomeou a cidade de Ninus, segundo ele próprio, e colocou muito território adjacente sob o domínio do colonista”. (Antiguidades da Ásia, livro II) 
Siculus atribui o inicio do império assírio a tal rei, designado apenas de “Ninus” pelos gregos. O termo “Ninus” provavelmente vem do sumério “Nin”, que significa simplesmente “senhor”, e era um título comum para reis.
Siculus comete alguns erros: Além de supor a existência de tal figura, denominado “Ninus”, Siculus atribui uma data muito tardia para o estabelecimento da Assíria. Sabe-se que ela é anterior a isso, e estela da verdadeira Semíramis é um indício disso. Sabe-se que, na realidade, tal rei jamais existiu, e a verdadeira Semíramis era esposa de Shamshi Adad V, e foi mãe não do fictício Niyas, mas de Adad-Nirari III.
De qualquer maneira, mesmo na lenda de Siculus, não se encontra nenhum elemento que poderia dar suporte à tese de Hislop, a que investigamos aqui.
O princípio da pretensa conexão
A ideia de Hislop se baseia inicialmente numa conexão bem anterior a ele.Ela parte da literatura clementina, um conjunto de pseudo-epígrafos que hoje se estima ter sido escrito entre os séculos 2 e 4 D.C. A ideia da literatura clementina é muito simples: A Bíblia diz que Nimrod fundou Níneve. A mitologia grega diz que um rei chamado Ninus fundou Níneve, logo Nimrod era conhecido como Ninus:
“Primeiro dentre os quais é nomeado um certo rei Nimrod, a arte da magia tendo sido dada a ele por um relâmpago, o qual os gregos chamavam Ninus, e de onde a cidade de Níneve tomou seu nome”. (Reconhecimentos 4:29)
  • Essa conexão apresenta alguns problemas:
a) A mitologia grega é fictícia;
b) O relato cronológico da mitologia grega é bem posterior à data que Bíblia diz que Níneve foi fundada;
c) O texto bíblico não deixa claro se quem fundou Níneve foi Nimrod ou Ashur. De fato, hoje em dia se privilegia a segunda leitura;
Além disso, a própria literatura clementina cai em contradição, em dado momento atribuindo a Nimrod outra identidade: a de Zoroaster, fundador do Zoroatrismo. Noutro ponto diz que Zoroaster foi Mitsrayim:
“Um desses, pelo nome de Ham, infelizmente descobriu o ato mágico, e escreveu a instrução dele a um de seus filhos, que era chamado Mitsrayim, de quem a raça dos egípcios e babilônios e persas descendem. A ele as nações que então existiam chamavam Zoroaster, admirando-o como o primeiro autor da arte mágica; negociante cujo nome também em muitos livros sobre o tema existem”. (Reconhecimentos 4:27)
“Portanto o mago Nimrod, tendo sido destruído por esse relâmpago caindo na terra do céu, por essa circunstância mudou seu nome para Zoroaster, em razão do córrego vivo (zosan) da estrela (asteros) sendo derramado sobre ele”. (Homilias 9:5)
Em outras palavras, pode-se perceber com clareza que os textos da literatura clementina simplesmente tentam amarrar as pontas, associando importantes figuras da literatura bíblica com personagens da cultura médio-oriental. Isso, por si só, não passa de um movimento ingênuo, sem qualquer fundamentação histórica concreta.
(continua na parte 3)

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