sábado, 9 de junho de 2012

TESHUVÁ - PASSO (9): CAMINHANDO EM FÉ (Parte 1)

Nono Passo:  Caminhando em Fé ( Parte 1)
 por Sha'ul Bentision
II - Introdução
A congregação está cheia. Após uma sessão de música bastante intensa e emocionante, o  pregador com o microfone e sua voz imperiosa fazem um apelo emocionado para que a multidão aceite o Messias.
Sem bem entender o que está fazendo, mas tomado pela emoção do momento, Leonardo vai até a frente. Ele levanta sua mão e aceita o Messias. Após lágrimas e aplausos de uma multidão frenética, Leonardo é parabenizado porque agora é um novo convertido. Ele “aceitou o Messias” e agora é um salvo. Ele é esperado em sua congregação semanalmente.
Para muita gente, a partir desse momento, ou de outro semelhante, Leonardo é um novo convertido, um salvo por assim dizer. E tantos outros passam por situações semelhantes com bastante frequência.
Se você chegou até aqui, querido leitor, provavelmente é porque você se pergunta se de fato a fé é isso. Se realmente uma pessoa é salva dessa maneira. E se é isso que as Escrituras indicam como sendo o poder do Eterno de converter o pecador de seus caminhos.
Se você olha para o cenário acima descrito e o acha ingênuo e superficial, você não está sozinho.
E este passo te ajudará a entender o que é a fé, e como viver uma vida de fé.
Comecemos por entender o que é dito a esse respeito. Geralmente, a parte que diz respeito a precisarmos de salvação não é difícil de entender:
“Porque todos pecaram e são carentes da glória de Elohim, mas são livremente justificados na graça e na redenção que há em Yeshua HaMashiach.”
(Ruhomayah/Romanos 3:23-24)
Essa é geralmente a passagem mais citada para falar da questão do pecado. E, de fato, não é difícil de entender: Todos os seres humanos são pecadores, e por sermos pecadores, não temos meios de nos relacionarmos com o Eterno, que é perfeito, sem que Ele proveja algo para nos redimir do pecado.
Porém, querido leitor, é a partir daí que a coisa costuma complicar. Embora poucos o admitam abertamente, você provavelmente já percebeu que a maioria das pessoas entende que a salvação é basicamente um passe VIP para pular o Julgamento Final, no qual você não teria a menor chance de ser absolvido, e ir morar no céu. Mesmo que esse conceito tão limitado e pueril seja floreado com belas palavras teológicas e textos infindáveis, é essa a ideia incutida nas mentes da maioria das pessoas.
Porém, se você sempre se perguntou se existe algo além disso, este passo pretende ser para você o começo de uma resposta. Começo porque há muito em que se aprofundar nesse tema, e o que aqui escrevo visa ser tão somente algo para nortear o princípio da caminhada.
III - A Mudança no Conceito de Fé
Para entender melhor a questão, é preciso que façamos uma viagem de volta ao século XVI, onde tudo começou.
Nossa história começa com o advento de uma doutrina chamada “Teologia da Graça Livre”.
Essa teologia foi criada para se opor a um conceito previamente existente denominado atualmente de “Salvação por Senhorio”. E o conflito entre ambas - que, ressalte-se, coexistem nos meios evangélico e protestante - se renova a cada geração, com algum autor lançando crítica ao proponente da outra teologia, perdura até hoje.
E a “Teologia da Graça Livre” é extremamente fundamental para o estabelecimento do que podemos chamar de “Cristianismo Moderno”, isto é, da era dos tele-evangelistas, das mega-igrejas e da prática que citamos acima.
Abaixo, apenas para título de breve ilustração, cito na íntegra a descrição de dois teólogos cristãos sobre esse debate. Procurei preservar ao máximo a leitura original de ambos. Lembro a todos que, no momento, não estamos avaliando nenhuma posição, apenas citando as duas partes do debate.
O teólogo Arch Rutherford, defendendo a “Teologia da Graça Livre”, afirma:
"A teologia da 'Graça Livre' ensina que recebemos a vida eterna no momento em que cremos em Jesus Cristo como nosso Senhor e Salvador pessoal. 'Senhor' se refere à nossa crença de que Ele é o Filho do Eterno e, portanto, capaz de ser nosso 'Salvador'. A 'fé' é vista como uma resposta simples e descomplicada à verdade que o Eterno revelou sobre Seu Filho, e o Presente que Ele oferece. Quando Jesus diz: 'Em verdade, em verdade vos digo, aquele que crê em Mim tem vida eterna' (João 6:47. 'crer' significa ser convencido e assegurado de que o que Ele diz é verdadeiro. (Vide João 1:11-13)" (What is “Free Grace” Theology)
Alguns de seus proponentes são ainda mais radicais na separação entre a salvação e o senhorio. Como exemplo temos a provocativa frase do teólogo Everett Harrison, que faz questão de chocar até pelo título de seu artigo, que diz que o Messias não precisa ser reconhecido como Senhor:
"Uma leitura fiel de todo o livro de Atos falha ao tentar revelar uma única passagem onde as pessoas são pressionadas a aceitar Jesus Cristo como seu Senhor pessoal a fim de serem salvas." ("Must Christ Be Lord and Savior--No", Revista Eternity, Setembro de 1959)
Já o teólogo John Stevenson, defendendo a “Teologia da Salvação de Senhorio”, afirma:
"Existe um ensino teológico que anda pelo Cristianismo e diz que é possível que alguém aceite Jesus como Salvador sem reconhecê-Lo e aceitá-Lo também como Senhor; que é possível crer em Jesus sem se arrepender do pecado e se submeter à Sua autoridade. Certamente, muitos desses que ensinam tal mensagem o fazem por meio de uma paixão em manter a graça do Eterno livre do esforço e das obras humanas. Mas ao reagir a uma falsa doutrina, eu creio que embarcaram no pêndulo de um extremo e abraçaram o outro. Como resultado. abandonaram conceitos tais como arrependimento e obediência e submissão à mensagem do evangelho… A fé envolve mais do que assentir a certos fatos históricos. Até mesmo o diabo tem esse tipo de fé. Crês que o Eterno é um. Fazes bem; até os demônios crêem, e tremem. Mas estás disposto a reconhecer, ó tolo, que a fé sem obras é inútil? (Tiago 2:19-20). A fé que salva é a fé que opera. Se ela não opera na sua vida, então também não opera em sua salvação." (Lordship Salvation)
IV - Definições Teológicas x Definição Bíblica
Em ambos os casos, querido leitor, percebe-se que os teólogos tentam definir o que é fé. Mas, na realidade, como já vimos antes, é exatamente aí que muitas vezes se criam as heresias: Quando homens tentam buscar definições próprias a partir de suas interpretações das Escrituras, ao invés de buscarem a definição na própria Palavra.
Sha’ul (Paulo) define a fé como a forma como Elohim se revela a nós:
“Porque não me envergonho das Boas Novas, porque são o poder de Elohim para a vida de todos os que nEle confiam, quer primeiramente aos judeus, quer aos arameus. Pois a justiça de Elohim assim se revela através da fé, conforme está escrito: O justo viverá pela fé.” (Ruhomayah 1:16-17)
Observe que ele faz uma citação do Tanach (“Primeiro Testamento”). Abaixo, o texto que ele cita do profeta Havakuk (Habacuque), com um pouco do texto adjacente para que possamos melhor compreendê-lo:
"Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé [be'emunato] viverá. Tanto mais que, por ser dado ao vinho é desleal; homem soberbo que não permanecerá; que alarga como o inferno a sua alma; e é como a morte que não se farta, e ajunta a si todas as nações, e congrega a si todos os povos."
(Havakuk/Habacuque 2:4-5)
Havakuk (Habacuque) compra o justo, que vive pela fé - aqui no hebraico aparece a palavra emuná (אמונה).
Já conseguimos de imediato perceber que a emuná, citada em Havakuk (Habacuque) e traduzida para o português como fé, é contrastada com o homem desleal.
Vamos ver alguns outros exemplos de como essa palavra é usada nas Escrituras:
V - A Fé é Firme
"Porém as mãos de Moshe eram pesadas, por isso tomaram uma pedra, e a puseram debaixo dele, para assentar-se sobre ela; e Aharon e Hur sustentaram as suas mãos, um de um lado e o outro do outro; assim ficaram as suas mãos firmes [emuná] até que o sol se pós." 
(Shemot/Êxodo 17:2)
É interessante, querido leitor, que a primeira vez que a palavra aparece nas Escrituras, ela se refere a algo firme. Na história acima, que vale à pena ser lida, as mãos de Moshe (Moisés) precisavam ficar firmes. A firmeza da mão é chamada de “emuná” - exatamente a mesma palavra usada em Havakuk (Habacuque).
A fé, portanto, é algo firme, sólido, bem estabelecido. Não pode ser algo inconstante.
VI - A Fé enquanto Fidelidade
Observe as palavras abaixo:
"Também não pediam contas aos homens em cujas mãos entregavam aquele dinheiro, para o dar aos que faziam a obra, porque procediam com fidelidade [emuná]." (Melachim Beit/2 Reis 12:15)
"Porém não se pediu conta do dinheiro que se lhes entregara nas suas mãos, porquanto procediam com fidelidade [emuná]." (Melachim Beit/2 Reis 22:7)
Em ambas as passagens, podemos perceber inicialmente que a fé não é uma crença, e sim um modo de agir. Nos exemplos acima, o rei Yoshiyahu (Josias) não precisou pedir conta daqueles a quem dava dinheiro para as obras relativas à Casa do Eterno.
E a razão para isso é porque eles agiam com “emuná”. Isto é, eles agiam de forma fiel. Em outras palavras, eles eram confiáveis. Aquilo que lhes era pedido, e com o qual eles se comprometiam, eles cumpriam.
A fé portanto não é crença, e sim agir agir de forma confiável, cumprindo aquilo que nos é solicitado pelo Eterno.
Vejamos outros dois exemplos:
"Porque havia naquele ofício quatro porteiros principais que eram levitas, e tinham o encargo [emuná] das câmaras e dos tesouros da casa de Elohim… E Matitiyahu, dentre os levitas, o primogênito de Shalum, o coraíta, tinha o encargo [emuná] da obra que se fazia em sertãs." (Divrei HaYamim Alef/1 Crônicas 9:26,31)
Nesses dois versículos acima, a responsabilidade da obra, o seu encargo, é também chamado de “emuná”.
A fé, portanto, é responsabilidade de agir segundo aquilo que lhe é confiado.
VII - O Eterno tem fé?
A ideia de que o Eterno tenha fé soaria totalmente estranha aos nossos ouvidos. Porque fé é entendida como uma crença. Como poderia o Eterno ter crença em algo, além dEle próprio?
Isso só mostra, querido leitor, como estão distantes o conceito de ‘fé’ e o verdadeiro conceito da palavra ‘emuná’ nas Escrituras.
Veja como essa palavra se aplica também ao Eterno:
"A tua misericórdia, YHWH, está nos céus, e a tua fidelidade [emunatecha] chega até às mais excelsas nuvens."
 (Tehilim/Salmos 36:5)
"E os céus louvarão as tuas maravilhas, ó YHWH, a tua fidelidade [emunatecha] também na congregação dos santos."
(Tehilim/Salmos 89:5)
Ironicamente, nesse caso a palavra ‘emuná’ é traduzida de uma forma que faz muito mais sentido no português de hoje do que a palavra ‘fé’. Aqui ela aparece traduzida como fidelidade.
E por que, querido leitor, dizemos que o Eterno é fiel?
Se você observar o relacionamento do Eterno com Avraham (Abraão), compreenderá exatamente o porquê:
“Quanto a mim, eis a minha aliança contigo: serás o pai de muitas nações... E disse Elohim: Na verdade, Sarah, tua mulher, te dará um filho, e chamarás o seu nome Yitschak, e com ele estabelecerei a minha aliança, por aliança perpétua para a sua descendência depois dele.”
(Bereshit/Gênesis 17:4,19)
O Eterno fez uma aliança com Avraham (Abraão). Nela, ambas as partes tinham algo a cumprir. Falaremos mais adiante sobre a parte que cabia a Avraham (Abraão). Havia, ainda, a parte que cabia ao Eterno: Ele estabeleceria a descendência de Avraham (Abraão) eternamente, através de Yitschak (Isaque).
Em seguida, lemos:
“E YHWH visitou a Sarah, como tinha dito; e fez YHWH a Sarah como tinha prometido. E concebeu Sarah, e deu a Avraham um filho na sua velhice, ao tempo determinado, que Elohim lhe tinha falado.”
(Bereshit/Gênesis 21:1-2)
Ou seja, o Eterno teve emuná, fidelidade. Ele se propôs a cumprir algo como parte de uma aliança que fez conosco, e assim cumpriu.
Sendo assim, não é difícil compreender o que é emuná, geralmente traduzida como ‘fé’: É aceitar os termos da aliança com Yeshua, e cumprir o que Ele pede de nós.
VIII - Fé e Obediência
Alguns anos atrás, conversava com uma jovem nos Estados Unidos, e ela se mostrava um tanto preocupada com relação à posição que ela devia assumir. De um lado, via pessoas que tudo era ‘fé’. De outros, via pessoas que ela julgava serem excessivamente zelosas com a obediência.
Lembro-me que várias vezes essa jovem me dizia: Deve haver um equilíbrio. Ela queria dizer que ela achava que deveria haver um equilíbrio entre fé e obediência.
Porém, a frase parte de uma premissa errada. Parte da premissa de que fé e obediência estão em extremos opostos, e que portanto se você for para um extremo, estará ignorando o outro.
Mas, observe as Escrituras abaixo:
"Ele lhes deu as seguintes instruções: Eis como agireis, com temor a YHWH, lealdade [be’emuná] e integridade de coração. Em todo litígio trazido à vossa presença por vossos irmãos, estabelecidos em vossas cidades, quer se trate de assassínio, de Torá, de preceito ou ordenações esclarecei-os, para que não se tornem culpados diante de YHWH , e que sua ira não se inflame contra vós e contra vossos irmãos.
Agi dessa maneira para não vos tornardes culpados.”
(Divrei HaYamim Beit/2 Crônicas 19:9-10)
Aqui, Yehoshafat (Jeosafá) instrui os sacerdotes de que eles deveriam agir com emuná (fidelidade), isto é, sendo alinhados com a Palavra do Eterno., não levando o povo a transgredir os Seus mandamentos.
"Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito, até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias madrugando e enviando-os. Mas não me deram ouvidos, nem inclinaram os seus ouvidos, mas endureceram a sua cerviz, e fizeram pior do que seus pais. Dir-lhes-ás, pois, todas estas palavras, mas não te darão ouvidos; chamá-los-ás, mas não te responderão. E lhes dirás: Esta é nação que não deu ouvidos à voz de YHWH seu Elohim e não aceitou a correção; já pereceu a fidelidade [emuná], e foi cortada da sua boca."
(Yirmiyahu/Jeremias 7:25-28)
Nesse trecho, observa-se que o povo não foi fiel; não deu ouvidos à voz do Eterno. E por isso o Eterno diz que “a fidelidade pereceu”. Isto é, emuná (fé/fidelidade) é dar ouvidos à voz do Eterno.
Como podemos ver, contudo, fé e obediência não estão em extremos opostos. A definição de fé é exatamente ouvir à voz do Eterno e obedecer a essa voz. A obediência, portanto, é parte da emuná, da fidelidade ou, se o leitor preferir a tradução popular, da fé.
O que essa moça talvez tenha querido dizer é que há pessoas que caem no legalismo. Resumem o seu relacionamento com o Eterno a uma lista de coisas que se deve ou não fazer. Porém, isso não é obediência ao Eterno.
Para se obedecer a um outro, é preciso saber o que o outro está pedindo de nós. E quando uma pessoa divide tudo numa lista de pode ou não pode, está ouvindo ao Eterno, ou à sua própria obsessão de justificar-se a si mesma?
É por isso que as Escrituras dizem:
“Portanto, a fé vem do obedecer o que se ouve, 
isto é, obedecer o que se ouve da Palavra de Elohim.”  
(Ruhomayah/Romanos 10:17, do aramaico)

(continua...)
oooOOOooo
IX - Fé x Obras
para ver estudo completo visite:  www.torahviva.org


2 comentários:

  1. PRECISAMOS TER FÉ NO ETERNO,E É ISSO QUE IMPORTA PARA SEGUIR A VIDA.EM FÉ

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  2. Com certeza, chaverah!
    E é essa fé (que podemos traduzir como "acreditar piamente em Sua Palavra") que nos leva a obedecer.
    Todah pelo comentário.

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