sexta-feira, 16 de março de 2012

A ORIGEM DO POVO BRASILEIRO QUE OS LIVROS NÃO CONTAM (PARTE 3)

Nenhum país das Américas tem história tão marcada pela presença do povo judeu como o Brasil.
por   Rachel Mizrahi
Entre outros cristãos novos envolvidos pela Inquisição, na primeira metade do século 18, citamos os irmãos Alexandre e Bartholomeu Lourenço de Gusmão, originários de Santos, cidade do litoral paulista. Embora de origem judaica, Alexandre e Bartholomeu Lourenço ocuparam significativos cargos na administração pública da metrópole e do Brasil. Alexandre de Gusmão foi secretário de Estado de D. João V e, seu irmão, Bartholomeu Lourenço, o "Padre Voador", pela invenção do aeróstato, ocupou cargos político-religiosos na metrópole.No grupo dos envolvidos pela Inquisição de Lisboa estava a família do advogado e procurador da Coroa, João Mendes da Silva, cristão novo, pai do famoso dramaturgo António José da Silva, processado e queimado em 1743. Entre seus denunciantes estava o capitão-mor da Capitania da Conceição de Itanhaém, Miguel Telles da Costa, cristão novo, também preso. Bem posicionada no Rio de Janeiro, a família Mendes da Silva viu-se obrigada a abandonar a cidade, instalando-se em Lisboa para acompanhar processos de seus familiares.
A miscigenação é fato inconteste na história colonial brasileira, especialmente pela ausência de mulheres brancas, e disso não se furtou o colonizador cristão novo que, comumente, se uniu a negras e índias. Tentando encontrar na cultura brasileira conteúdo herdado dos cristãos novos, o conhecido pesquisador Câmara Cascudo lembra alguns costumes, ainda prevalecentes no meio rural(3). Aponta o abate de aves, sangrando-as, e o resguardo familiar no luto, por exemplo, como práticas de influência judaica. Além de Câmara Cascudo, especialistas de estudos do "mental coletivo brasileiro" afirmam que, a "religião de verniz" ou "ir para a igreja sem convicção interior", expressas por alguns clérigos no país, possam ter-se originado do acomodado comportamento religioso dos cristãos novos no período colonial.
Notas:
(1) Legislação que impedia a negros, índios, mestiços, judeus, cristãos novos e ciganos a ocupação de cargos públicos, militares e religiosos.
(2) Seu processo foi estudado e publicado por Elias Lipiner, sob o título: Izaque de Castro: um mancebo que veio preso do Brasil". Recife: Fundaj-Massangana, 1992.
(3) Luis da Câmara Cascudo. Mouros, Franceses e Judeus. Três presenças no Brasil. Editora Perspectiva, São Paulo, 1984.
Rachel Mizrahi é autora de A Inquisição no Brasil: Miguel Telles da Costa. O capitão judaizante de Paraty. (2ª Ed., no prelo) e Imigrantes no Brasil: Os judeus.São Paulo: Lazuli/Ed. Nacional, 2005


fonte:  Revista Morashá, ed. 61, julho/2008

Nenhum comentário:

Postar um comentário