quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A TRINDADE E A NATUREZA DO ETERNO (PARTE 1)


Por Sha'ul Bentsion
Sempre que nos deparamos com pontos fundamentais da fé, a pergunta mais importante de todas é: Como era no princípio? A maioria das pessoas afirma que gostaria de crer e praticar a fé como os primeiros seguidores de Yeshua fizeram, e a maioria certamente crê dessa forma. 
Um dos pontos fundamentais de divergência entre os seguidores de Yeshua é a questão da natureza do Pai e do Filho. Basicamente, quanto a isso, existem três campos de pensamento principais: O dos trinitários, de maneira bem resumida e superficial, na fórmula de que o Eterno se subdivide em três pessoas, que dividem uma mesma essência e formam um só ser.
Os arianos que, novamente falando em linhas bem gerais, não creem que Yeshua seja o próprio Eterno, mas sim outro ser que de alguma forma também é central para a fé. E os que creem que o Eterno é um único Ser, manifestando-se de muitas formas, inclusive na pessoa de Yeshua. Esses não são os únicos, mas certamente são os mais expressivos atualmente.
A Questão Histórica
Evidentemente que existe a questão bíblica, e a análise do contexto das Escrituras é fundamental, principalmente buscando o entendimento do Tanach (Primeiro Testamento) sobre a natureza de Elohim. Sobre isso, já existe no grupo material relativamente abundante.
Contudo, essa questão também tem um caráter histórico: Existe alguma coisa que nos aponte, do ponto de vista histórico, na direção de como criam os primeiros seguidores de Yeshua? 
A maioria dos trinitários, por exemplo, sequer questiona a origem dessa doutrina, ou sequer se pergunta se ela de fato era a forma como criam a maioria dos seguidores de Yeshua. Simplesmente partem do pressuposto de que isso seja verdade. Mas o que a história nos revela?
Qual dessas crenças era a mais aceita e tida como a conclusão mais lógica a partir das Escrituras, para os primeiros seguidores de Yeshua? Ou seja, o que revela a abordagem histórica?
Existe uma resposta na história, e ela pode surpreender a muitos. Este é um primeiro artigo de uma série, que pretende abordar essa questão.
O Testemunho Histórico de um dos Pais da Trindade
Para obter a resposta a essa indagação, é preciso voltar as atenções a Quintus Septimius Florens Tertullianus, ou Tertuliano, como é conhecido popularmente. 
Tertuliano é importante do ponto de vista histórico porque foi o primeiro teólogo a dar uma definição, um contorno formal, à doutrina da Trindade. É ele quem primeiro a explana, e quem define o seu dogma. Sendo assim, ele pode ser considerado um dos pais dessa doutrina. 
Para fazer isso, Tertuliano também contrasta sua crença trinitária com outras crenças que existiam na época, e ao fazer isso, fornece informações preciosíssimas historicamente. 
A principal obra de Tertuliano defendendo a trindade é chamada de “Contra Práxeas”, escrita no início do século III.
Os principais adversários de Tertuliano são por ele chamados de “monarquistas”, e ele, Tertuliano, assim os define: 
“Então ou é o Pai, ou é o Filho, e o dia não é o mesmo que a noite; nem o Pai é o mesmo que o Filho, de forma que ambos sejam Um, e Um ou Outro sejam ambos - uma opinião que os mais conceituados 'monarquistas' mantêm.” (Contra Práxeas, Capítulo 10)
Ou seja, os monarquistas de Tertuliano eram justamente aqueles que compreendiam que YHWH é um, e que ao longo das Escrituras Ele se manifesta de diferentes formas.
A Posição da maioria, antes de Nicéia
Como é de conhecimento comum, foi no Concílio de Nicéia que a doutrina da Trindade foi oficializada como dogma da Igreja. Mas, como eram as coisas antes de Nicéia?
Abaixo, observa-se o testemunho histórico de Tertuliano sobre como criam a maioria dos seguidores de Yeshua, cerca de pouco mais de 100 anos do Concílio de Nicéia.
“Os simples, de fato, (não os chamarei de não-sábios nem de indoutos), que constituem a maioria dos crentes, ficam assombrados com a dispensação (dos três em um), no sentido de que a sua própria regra de fé os afasta da pluralidade de deuses para um único e verdadeiro Eterno*; não compreendem que, apesar dEle ser o único e verdadeiro Eterno*, Ele deve ser crido em sua própria economia... Eles estão constantemente nos atacando, dizendo que somos pregadores de dois deuses e de três deuses, enquanto eles mantêm preeminentemente o crédito para eles mesmos de serem adoradores do Único Eterno*; tal como se a Unidade em si com suas deduções irracionais não produzisse heresia, e a Trindade racionalmente considerada constitui a verdade. 'Nós', dizem eles, 'mantemos a Monarquia (ou único governo do Eterno*).'“ (Tertuliano, Contra Práxeas, Capítulo 3, * Nome pagão substituído)
Observe que Tertuliano afirma claramente que a maioria dos crentes em Yeshua, até o final do século II criam que YHWH é um, e se manifesta de diversas formas.
Ele afirma ainda que a maioria dos seguidores de Yeshua acreditava dessa forma, e rejeitava doutrinas que dividissem YHWH/Yeshua em dois - o que seria posteriormente conhecido como “Arianismo” devido à Ário, bispo do século III. Semelhantemente rejeitavam doutrinas que dividissem YHWH em três (Trindade).
É importante observar que, nessa época, Sabélio ainda não havia dado contorno formal ao que posteriormente se chamou de Modalismo, uma das vertentes do pensamento de que YHWH se manifesta de diversas maneiras. Isso aconteceria posteriormente, quase 50 anos depois.
Observe ainda o esforço de Tertuliano para tentar convencer a esses seguidores de Yeshua de que na realidade YHWH se subdividia em três pessoas. Por seu texto, fica claro que naquela época, a doutrina da Trindade ainda era muito pouco difundida, e estava em seus estágios iniciais.
A fórmula atual de entendimento da trindade, com o contorno que tem até hoje, teve sua origem justamente nas explanações de Tertuliano. Mas o que o motivou a tentar fazer proliferar tão veementemente essa idéia?
Há dois motivos que a história nos indica. O primeiro motivo é político. A Enciclopédia Católica afirma o seguinte:
“Práxeas prevenira, segundo Tertuliano, o reconhecimento da profecia montanista por parte do papa. Tertuliano o ataca como monarquista, e desenvolve a sua própria doutrina da Santa Trindade.” (Tertullian, Enciclopédia Católica)
Para o Montanismo, a doutrina da Trindade era fundamental, pois Montano, fundador do movimento, considerava ser ele próprio a encarnação, ou talvez o portador do Espírito Santo. Com profecias e êxtase similares ao dos cultos pagãos, o Montanismo era uma espécie de movimento pentecostal primitivo. E Tertuliano era ferrenho defensor e seguidor do Montanismo.
Para Tertuliano, que até a meia-idade havia sido um pagão, provavelmente a familiaridade do Montanismo com o paganismo primitivo era certamente um ponto de convergência atraente.
Isso também explica o segundo motivo, sobre o qual o próprio Tertuliano dá indícios importantes na mesma obra:
“Bem, então os latinos têm dores para pronunciar a Monarquia, enquanto os gregos de fato se recusam a entender a economia, ou dispensação (dos três em um). Quanto a mim, contudo, se eu obtive algum conhecimento de sua língua, tenho certeza de que a monarquia não tem outro significado senão o governo único e individual; mas apesar disso tudo, esta monarquia não tem, porque é o governo de um, impossibilitando aquele de quem é governo, de quer ter um filho ou de fazer de si mesmo um filho de si próprio, ou de ministrar sua própria monarquia através dos agentes que desejar.” (ibid)
Observe portanto que os desenvolvimentos de Tertuliano quanto à doutrina da Trindade tiveram também a motivação de procurar unificar alguns diferentes tipos de crença existentes à sua época.
E não é surpreendente que um dos principais objetivos fosse permitir uma maior facilidade de adoção da fé por parte dos romanos (por ele chamados de latinos), que tinham muita dificuldade de abandonar o politeísmo.
Para o que certamente para ele significava facilitar a conversão, Tertuliano encontrou uma forma de combinar a unicidade de YHWH com uma visão de mundo politeísta, procurando agradar a todos os lados.
Conclusão (parte 1)
Analisando esses elementos históricos, pode-se concluir o seguinte:
  • Até o século III, a maioria dos seguidores de Yeshua cria que YHWH se manifesta de diversas formas, e que Yeshua é uma dessas manifestações.
  • Até o século III, a doutrina da Trindade ainda não estava definida em sua forma atual. 
  • Os motivos que levaram Tertuliano a fazer algumas das importantes postulações trinitárias não foram unicamente teológicos, mas fundamentalmente políticos e sincréticos.
  • Uma das principais motivações de Tertuliano era a defesa do Montanismo, uma forma primitiva de pentecostalismo baseada em êxtase e nas falsas profecias de Montanus.
(continua)
fonte: www.torahviva.org

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