segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O CAMINHO DE ELOHIM (PARTE 1)

Um dos temas (supostamente) mais complexos das Escrituras é o entendimento da natureza de Elohim. Esse tema e suas doutrinas (como trindade, modalismo, arianismo, etc.) tem sido fonte de grandes conflitos ao longo da história.
O grande problema é que, por trás de todas as doutrinas e teorias formuladas, sempre encontramos uma boa dose de ideias preconcebidas e tentativas de fazer com que essas ideias se encaixem com as Escrituras. Por exemplo: Alguns partem do pressuposto de que o Judaísmo jamais poderia ter crido dessa ou daquela maneira. Ao fazerem isso, elevam a tradição humana ao status de Verdade. Outros ignoram o fato de que algumas doutrinas, como o Trinitarismo, surgiram como formas de conciliação política de diferentes visões.
Outras visões ainda tomam unicamente como base o chamado Novo Testamento, ou elementos históricos do que supostamente cria este ou aquele grupo. Outros imediatamente rotulam esta ou aquela visão como “cristã” e automaticamente rejeitam qualquer razão bíblica por detrás do argumento. E assim por diante.
Todas essas diferentes visões sobre a natureza de Elohim são muito boas no fazer o seu “dever de casa” e apontar os embaraços históricos e/ou bíblicos de doutrinas opositoras. Porém, são extremamente falhas em reconhecer as suas próprias dificuldades históricas e/ou bíblicas.
Na realidade, por incrível que pareça, quando atentamos unicamente para o que dizem as Escrituras, reconhecendo-as como a única fonte plausível para extrairmos uma verdade de fé, podemos perceber que o entendimento sobre a natureza de Elohim torna-se muito mais simples do que parece à primeira vista.
É uma questão de estarmos dispostos a nos desnudarmos de qualquer dogma pré-concebido, seja ele judaico, cristão, ou qualquer outro. Depois, voltemo-nos para o que dizem as Escrituras. E é este o nosso objetivo com este estudo. O Monoteísmo e as Pragas do Egito. Ao lermos a narrativa da Torah sobre a saída do povo de Israel do Egito, nos deparamos com a seguinte expressão:
“E eu passarei pela terra do Egito esta noite, e ferirei todo o primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e em todos os deuses do Egito farei juízos. Eu sou YHWH.” (Shemot/Êxodo 12:12)
O interessante dessa leitura é que a Torah nos apresenta as diferentes pragas que YHWH fez cair sobre o Egito como um juízo sobre “os deuses do Egito”. Por que a Torah nos diz isso?
A interpretação praticamente unânime dessa passagem é a de que os egípcios possuíam vários deuses, e de que cada praga demonstrava a eles que, na realidade, era YHWH quem estava no controle daqueles elementos.
Por exemplo: Os egípcios criam no deus Hapi, o deus do Nilo, que em tese controlaria as cheias do rio Nilo, e que, portanto, era fundamental para a fertilidade da área. Ao lado, podemos ver uma imagem de Hapi esculpida no templo de Luxor, erguido por Amunhotep por volta do século 19 AC. As duas figuras de Hapi representam Hapi no baixo Nilo e no alto Nilo.
Assim sendo, quando a Torah afirma que YHWH transformou o Nilo em sangue, esta foi uma demonstração para faraó e para os egípcios de que somente YHWH é Elohim sobre os céus e a terra, e que Hapi não tem poder algum. O mesmo pode ser dito para os demais deuses do Egito, cada um tendo sido “afligido” por uma das pragas.
O Egito, sob esse aspecto, não era diferente de qualquer outra sociedade politeísta primitiva. O politeísmo caracteriza-se fundamentalmente pela crença de que as forças da natureza são, na realidade, deuses diferentes.
Harsh Nevatia, professor de mitologia hindu, em seu artigo “The Pagan Origins of Hindusim” descreve com bastante precisão o fenômeno do politeísmo:
Em praticamente todas as civilizações antigas, a religião se iniciou como um fenômeno pagão. O paganismo era caracterizado por um panteão de deidades amplamente representando as forças da natureza. Por exemplo, Hélios era o deus sol na Grécia antiga e Horus era o deus do céu para os egípcios antigos. Civilizações antigas inicialmente não tinham explicações para fenômenos naturais, então acreditavam que as forças divinas eram responsáveis por eles.
A sociedade védica primitiva daquilo que é a Índia hoje também era pagã. Indra era o deus do trovão, e também o rei dos deuses. Agni era o deus do fogo, Varun o deus do céu, e assim por diante. Os rios e montanhas também eram deificados; Ganga, o principal rio da Índia, sendo um exemplo. A flora e a fauna também eram adoradas. Agradar os deuses pagãos implicava em receber a sua benevolência tal como chuvas temporãs e boa colheita. Irritá-los levava a incorrer em sua ira, na forma de enchentes ou secas.”
De fato, a Bíblia está cheia de exemplos de como os demais povos primitivos adoravam outros deuses. Seguem alguns exemplos:
• Dagon, deus dos mares (ex: Jz. 16:23)
• Asherá/Ishtar, deusa da primavera/fertilidade (ex: 1 Re. 15:13)
• Nebo, deus da sabedoria e da escrita (ex: Is. 46:1)
• Fortuna, deusa da sorte (ex: Is. 65:11)
• Marduk, deus da água, vegetação, juízo e magia (ex: Jr. 50;2)
• Baco, deus do vinho (ex: 2 Mac. 6:7)
• Hermes, deus-mensageiro (ex: At. 14:12)
• Artemis, deusa da floresta (Ex: At. 19:34)
Como podemos ver, esses deuses pagãos estavam sempre associados a lugares importantes, astros, fenômenos naturais, entre outros. E é fundamental termos isso em mente para entendermos o que virá a seguir.

O Monoteísmo de Muitos Nomes
Alguns acadêmicos críticos da Bíblia dizem que originalmente a fé bíblica teria sido politeísta, e que teria posteriormente evoluído para um monoteísmo à medida que a sociedade israelita primitiva evoluiu. Como uma das principais provas de seus argumentos citam o fato de que a Bíblia traz muitos nomes e/ou títulos associados a YHWH.
De fato, a Bíblia chama a YHWH por muitos nomes. Porém, o grande erro de tais acadêmicos está em compreender que os termos bíblicos que aparecem se referindo a YHWH sejam, na realidade, nomes de divindades diferentes. Não é o caso, como veremos adiante.
O primeiro ponto importante que precisamos ter em mente é o fato de que YHWH é insondável e infinito. Sha'ul (Paulo) demonstrou isso plenamente ao dizer:
O profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Elohim! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Porque quem compreendeu a mente de YHWH? ou quem foi seu conselheiro?” (Ruhomayah/Romanos 11:33-34)
O salmista também nos demonstrou que YHWH não tem limites:
Para onde me irei da tua Ruach, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no Sheol a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá.” (Tehilim/Salmos 139:710)
O que ambas as passagens acima têm em comum? O fato de que ninguém é capaz de se relacionar com a totalidade de YHWH. O ser humano sempre o perceberá de forma limitada.
Pensemos da seguinte forma: Se estamos bem próximos de uma montanha, não somos capazes de olhar para a sua totalidade, porque a montanha é muito maior do que as nossas limitações de percepção. Estando próximos da montanha, podemos talvez olhar para o seu cume, mas não seremos capazes de ver sua base. Somos capazes de olhar para sua base, mas não veremos seu cume. E mesmo que nos afastemos um pouco, só seremos capazes de perceber sua “frente”. Quem seria capaz de ver, ao mesmo tempo, sua frente e suas “costas”?
Assim sendo, desde o princípio o povo de Israel percebeu que não poderia encontrar um termo, ou palavra, que pudesse descrever a YHWH em Sua totalidade. Ou talvez possamos pensar até mesmo do ponto de vista contrário: Não haveria palavra que YHWH pudesse inspirar nas Escrituras que pudesse descrevê-Lo em Sua totalidade, pois o ser humano não seria capaz de compreendê-la.
Por esta razão, os diferentes nomes e/ou títulos atribuídos a YHWH nas Escrituras nada mais são do que diferentes formas de percebê-Lo. É exatamente como o monte no exemplo ilustrativo que vimos acima. Podemos chamar o monte de “cume” ao dizer: “Ergui meus olhos e contemplei o cume verdejante”. O que é o cume, senão o próprio monte? Ou podemos dizer: “A base é firme, e não haverá deslizamentos.” O que é a base, senão igualmente o próprio monte.
Perceba ainda que a divisão do monte em “base” e “cume” na realidade é uma divisão virtual. O monte não é feito com blocos de montar para que possamos de fato separar o cume da base. Quem decide onde começa o cume, e onde termina a base? O fato é que a divisão está na nossa própria percepção, e não no monte. Nossa percepção é limitada, e são os limites da nossa percepção que automaticamente “dividem” o monte.
Outro exemplo interessante que temos na natureza de como nossa percepção pode criar divisões está no relâmpago. Os antigos sempre o descreviam como “raios e trovões”. Ora, na realidade, “raios e trovões” são uma coisa só. Ocorre apenas que a luz é mais rápida do que o som, e como nossos ouvidos só escutam sons relativamente próximos, percebemos a luz muito antes de percebermos o som. Ou seja, percebemos “raios e trovões” de forma separada, quando na realidade trata-se do mesmo fenômeno físico: uma descarga elétrica que vai da atmosfera ao solo.
Analogamente, são os limites de nossa percepção que automaticamente “dividem” YHWH. Às vezes, só percebemos um de seus aspectos, como no caso da montanha, ou em outras ocasiões, percebemos dois ou mais aspectos supostamente divididos, embora tal divisão seja unicamente criada pelo limite de nossa percepção.
Podemos ver tal coisa ao olharmos para os nomes e/ou títulos dados a YHWH nas Escrituras. Por exemplo, o salmista nos diz em Tehilim/Salmos 91:
Tu que estás no esconderijo do Elyon e moras à sombra do Shadai.”
O termo “Elyon” literalmente significa “alto”, e evidentemente subentende-se aí que se refira ao “Altíssimo”, isto é, aquele que está no topo de todas as coisas.
Em outras palavras: o termo “Elyon” é uma referência a YHWH como aquele que habita nos altos céus. Agora compare esse termo como a referência que o salmista faz no Sl. 139 sobre descer até o Sheol. Ora, o Sl. 86:13 ilustra bem o fato de que na Bíblia, o Sheol era figurativamente um abismo: “porque é grande para comigo o teu amor; das profundezas do Sheol me tiraste.”
Em suma: o termo “Elyon” é um bom descritivo para YHWH, pois YHWH de fato habita nos altos céus. Todavia, é um termo insuficiente para descrever a totalidade de YHWH, pois quando David fala que YHWH está até mesmo no Sheol, vemos que YHWH não habita unicamente as alturas, mas também as profundezas. Devemos, pois, como faz o Zoroastrismo, supor então uma dualidade de deuses? Devemos supor que YHWH é composto de dois deuses: Um que habita nas alturas, e outro que habita no Sheol? Evidentemente que não! Apenas, esbarramos mais uma vez nas limitações humanas.
Tomemos como outro exemplo o termo “Shechiná”. Esse é um termo bíblico mais recente, que aparece, por exemplo, em Ivrim/Hebreus 1:3:
Por causa da Sua porção, sendo Ele o resplendor da Sua Shechiná e o Criador de todas as coisas pelo poder da Sua Palavra, em Sua essência realizou a purificação dos nossos pecados”
Duas coisas são importantes sobre o termo “Shechiná”. A primeira delas é o fato de que o termo é feminino. Portanto, é um termo que diz respeito ao aspecto feminino de YHWH. Como sabemos, YHWH tem um aspecto feminino, pois a Bíblia diz:
E criou Elohim o homem à sua imagem: à imagem de Elohim o criou; homem e mulher os criou.” (Bereshit/Gênesis 1:27)
Além disso, o termo Shechiná significa literalmente “habitação” ou, mais interpretativamente, “presença”. Ou seja, o termo se refere à presença de YHWH. Aliás, não apenas isso, como um aspecto feminino da presença de YHWH.
Ora, se a Shechiná é um aspecto feminino de YHWH, então o termo Shechiná também é insuficiente para descrever a totalidade de YHWH. Por exemplo, há trechos em que as Escrituras dizem que YHWH é Pai:
Mas tu és nosso Pai, ainda que Avraham não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó YHWH, és nosso Pai; nosso Redentor desde a antiguidade é o teu nome.” (Yeshayahu/Isaías 63:16) Por um lado, vemos a Shechiná habitando em Israel:
Não contaminareis pois a terra na qual vós habitais, no meio da qual eu habito; pois eu, YHWH, habito no meio dos filhos de Israel.” (Bamidbar/Números 35:34)
Por outro, quando o povo estava aos pés do Sinai, YHWH os advertiu para que não se aproximassem excessivamente:
E disse YHWH a Moshe: Desce, adverte ao povo que não traspasse o termo para ver YHWH, para que muitos deles não pereçam.” (Shemot/Êxodo 19:21)
Se a Shechiná já estava presente em meio ao povo, por que o povo não poderia se aproximar do Sinai? Novamente, percebemos que as nossas palavras tornam-se insuficientes para descrever a totalidade de YHWH. Não é difícil, todavia, entendermos que a experiência com YHWH no Sinai era muito mais intensa e íntima do que o experimentar a Sua presença no dia-a-dia. E há outros tantos exemplos. Se Elohim habita nos corações dos justos (1 Jo. 4:16) por que é que ninguém poderia adentrar o santuário, salvo em certas condições (Nu. 4:20)? Novamente, a resposta é simples: Ninguém é capaz de ter uma experiência plena com Elohim. Pelo menos, não nesta vida. '
Por fim, nosso último exemplo: YHWH é chamado de “YHWH Tseva'ot”. O termo “Tseva'ot” é traduzido literalmente como “exércitos”. Ou seja, “YHWH dos Exércitos” ou “YHWH das Hostes [Celestiais]”. Podemos ver tal nome em Yeshayahu/Isaías 22:14:
Porque este dia é o dia de Adonai YHWH Tseva'ot, dia de vingança para ele se vingar dos seus adversários; ; e a espada devorará, e fartar-se-á, e embriagar-se-á com o sangue deles; porque Adonai YHWH Tseva'ot tem um sacrifício na terra do norte, junto ao rio Eufrates.” (Yirmiyahu/Jeremias 46:10)
O termo “YHWH Tseva'ot” refere-se a YHWH enquanto guerreiro. Isto é: Aquele que se vingará de seus adversários no dia do juízo. Ora, esse termo também é insuficiente para descrever a totalidade de YHWH, pois YHWH também é amoroso, misericordioso e longânimo. Isso invalida seu lado guerreiro? Evidentemente que não! Apenas é mais um caso que nos mostra que um único termo não é suficiente para descrevê-Lo. 
(continua)
fonte: www.torahviva.org

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